
 

"Voc  o pai de Theo..."

A revelao de Catherine Glenn deixou Samuel Winston perplexo. Era verdade que ele e o pequeno Theo tinham cabelos e olhos de tom idntico. Mas isso seria suficiente como prova? Ou apenas uma incrvel coincidncia? 
Catherine havia se infiltrado na vida e na residncia do famoso escritor Samuel Winston com o objetivo de faz-lo pagar pelo sofrimento, que causara a sua falecida irm, me do pequeno Theo. Esperava encontrar um homem frio e calculista... Entretanto, Samuel pareceu-lhe bem diferente: sensvel, digno e... honrado! Seria possvel que sua irm tivesse cometido um erro, ao julgar aquele homem? Ou ela, Catherine Glenn, estaria se deixando fascinar pelos encantos de seu doce inimigo?




Ttulo original: Booties and the beast
Traduo: Camilo Garcia
Digitalizao: Simoninha
Reviso: Simone Ribeiro







CAPTULO I


	Agora, que Catherine Glenn estava diante da imponente propriedade de Samuel Winston, ela j no tinha certeza do que fazer. Fora um erro ou um acerto ter vindo?
	Um profundo suspiro brotou do peito de Catherine, enquanto uma onda de revolta erguia-se em seu ntimo.
	Seu carter impulsivo ordenava-lhe que pegasse Samuel Winston pelo colarinho e o sacudisse violentamente, at que por fim ele admitisse que era o pai de Theo Glenn, filho de Helenna MacAllister e sobrinho de Catherine.
	O pequeno Theo havia completado seis meses de idade, alguns dias atrs. Sua me, porm, falecera havia cinco meses.
	Catherine ergueu a cabea, com uma expresso altiva. At alguns instantes atrs, estivera bem certa do que deveria dizer quele homem inescrupuloso e cruel.
	Apenas, no contara com aquele sbito sentimento de insegurana que agora a invadia. Um sentimento que se revelava atravs de um leve tremor nas mos e nas pernas, aliado a uma sensao de sufocamento, que travava-lhe a garganta.
	Por um instante, Catherine pensou em sair correndo dali.
	"Foi um grande erro ter vindo", disse para si, considerando seriamente a possibilidade de voltar para casa.
	Mas, por outro lado, ela havia ansiado tanto por aquele instante! Fora muito difcil convencer Miranda Gladson, sua amiga e proprietria da Agncia de Empregos Homebody, a deix-la vir em seu lugar.
	Por tudo isso, e muito mais, ali estava ela... Com a sensao de que agora era um pouco tarde para voltar atrs.
	Um longo momento se passou.
	Catherine tomou flego e aproximou-se do porto de ferro batido, que dava acesso  propriedade. O interfone ficava  esquerda do porto e ela pressionou-o nervosamente, por alguns instantes.
	O som de latidos fortes veio do interior da propriedade, fazendo com que Catherine estremecesse. Mas a voz que soou no interfone assustou-a ainda mais:
	 No  preciso esquecer o dedo na campainha. Apenas identifique-se e informe o assunto que o trouxe aqui.
	S ento Catherine deu-se conta de que havia tocado o interfone por um tempo bem maior do que o permitido pela boa educao.
	Imprimindo  voz uma segurana que estava longe de possuir, ela se apresentou:
	 Meu nome  Catherine Glenn. Fui enviada pela Agncia Homebody, por solicitao do sr. Samuel Winston.  Aps uma pausa, esclareceu:  Sou candidata ao cargo de governanta.
	 Certo, srta. Glenn  a voz soou num tom grave e pausado, bem mais ameno do que na primeira vez.  Sou Samuel Winston e gostaria de saber por que a srta. Miranda Gladson no veio.
Catherine, que j esperava por essa pergunta, explicou:
	  Ela est muito ocupada, hoje.
	 Que pena. A srta. Miranda Gladson sempre me atende com uma deferncia especial. Basta eu lhe telefonar, solicitando algum para desempenhar uma funo, e ela vem pessoalmente tratar do assunto. Conversarmos a respeito e ento ela se despede, prometendo encontrar a pessoa ideal para o trabalho. E sempre acerta em cheio.
	 Bem, sr. Winston...  Catherine suspirou.  Espero poder atend-lo de maneira satisfatria. Creio estar capacitada para tanto, caso contrrio Miranda no teria me enviado.
Um breve silncio se fez, do outro lado da linha. E antes que esse silncio se tornasse por demais constrangedor, Catherine decidiu quebr-lo:
 Se no se importa, sr. Winston, gostaria de tratar desse assunto pessoalmente, e no atravs do interfone.
 Oh, claro  ele assentiu, num tom polido.  Perdoe minha distrao, sim? Queira entrar, por favor.
  Obrigada.
Catherine ouviu um zumbido eletrnico. Em seguida forou levemente o porto, que cedeu. Depois de abri-lo de par em par, Catherine voltou ao carro, um Escort que deixara estacionado a poucos metros de distncia, e sentou-se diante do volante. Acionou o motor e entrou na propriedade, em velocidade bastante reduzida.
	O zumbido eletrnico soou novamente, enquanto o porto se  fechava. Era fcil deduzir que a entrada da propriedade era controlada atravs de um sistema de alta tecnologia, munido de sensores. Mas mesmo assim Catherine sentiu-se incomodada, como se acabasse de penetrar numa priso, cujas grades se trancavam, mantendo-a prisioneira.
  Esse pensamento sombrio, porm, em nada combinava com a beleza que a circundava. Assim Catherine pensava, enquanto dirigia por uma alameda estreita, ladeada de belos canteiros de flores. Um pouco mais adiante, havia um bosque de rvores centenrias, onde pssaros cantavam alegremente, como se saudassem a bela tarde de vero.
A alameda conduzia  casa, uma imponente construo de estilo colonial, muito bem conservada. Tinha paredes brancas e janelas azuis, com floreiras cheias de gernios, que emprestavam um toque de leveza e graa  severidade do estilo.
Catherine parou prximo  varanda da casa, saltou do carro e preparou-se para a dura batalha que a aguardava.
Um movimento  esquerda chamou-lhe a ateno. Virando-se, ela deparou com um co imenso, de longos pelos cor de caramelo, que se aproximava correndo, latindo de maneira ameaadora.
 Minha nossa!Catherine exclamou, empalidecendo.
Mas no havia tempo sequer para ficar assustada.
O co se aproximava velozmente.
"Preciso agir, antes que seja tarde demais", Catherine pensou, aflita.
E foi o que fez: entrou no carro, bateu a porta e fechou a janela, um momento antes que o animal a alcanasse.
Com os olhos verdes arregalados numa expresso de espanto e medo, ela observou as enormes patas do cachorro, que arranhava o vidro da janela, enquanto continuava a latir.
 Dougal!  uma voz enrgica soou, elevando-se acima dos latidos.
Voltando o rosto, Catherine avistou um homem alto e elegante, que se aproximava.
  J chega, rapaz  ele ordenou ao co, num tom carinhoso, mas firme.  Est tudo bem.
Imediatamente, o animal se acalmou. Sentou-se sobre as patas traseiras e continuou observando Catherine, com uma expresso atenta.
Ela respirou aliviada, mas nem por isso menos furiosa.
"Se as pessoas querem ter um cachorro, tudo bem, esto em seu pleno direito", pensou, indignada. "Mas deixar que o animal ameace a segurana dos outros...  no mnimo imperdovel".
O momento no era adequado, a divagaes, Catherine disse a si mesma. Afinal, viera at ali para tratar de um assunto muito mais importante...
Havia chegado a hora pela qual tanto esperara, ela decidiu. Passou a mo pelos cabelos ruivos, ajeitando-os. Ergueu o queixo, assumiu uma expresso altiva, mirou-se de relance no espelho retrovisor e, abrindo a porta do carro, saltou.
Bastou um rpido olhar na direo do homem que a observava, para que Catherine constatasse que ele era, realmente, Samuel Winston, famoso escritor de livros infantis, cuja foto figurava nas capas de seus livros e suplementos literrios de jornais.
Tal como aparecia nos retratos, Samuel Winston tinha um olhar penetrante e um rosto de traos perfeitos.
Mas o que as fotos nem sempre mostravam era o carisma, o vigor, uma espcie de aura de poder e encanto que o envolvia. A estatura elevada, o tom bronzeado da pele e a elegncia natural faziam de Samuel Winston o homem mais belo e atraente que Catherine j vira, em toda sua vida.
Ele usava cala caqui, camisa de gola plo branca e mocassins.
"Seus cabelos so negros e, os olhos, azuis, como os de meu doce Theo", Catherine notou.
A lembrana do sobrinho, um beb de apenas seis meses, e de sua meio-irm, falecida um ms aps dar  luz, provocou em Catherine uma intensa vontade de chorar. E ela precisou de um esforo sobre-humano para resistir.
No podia se dar ao luxo de ceder  angstia. No agora, no naquele momento crucial, quando era absolutamente necessrio agir.
Era isso que Catherine se recomendava, ao encarar Samuel Winston. Mas, por incrvel que pudesse parecer, ela comeava a se sentir terrivelmente embaraada. O que era mesmo que deveria dizer quele homem?
"Sr. Samuel Winston, meu nome  Catherine Glenn, como j sabe. Vim at aqui para tratar de um assunto que, embora no lhe interesse,  muito importante. Sou tia de um beb chamado Theo Glenn MacAllister e irm de Helenna MacAllister. Caso voc no saiba, ou no queira saber, Theo  seu filho. Agora, ele est rfo. A propsito, sabe por que Theo se chama Glenn, embora este seja o sobrenome de meu pai e no do pai de Helenna? Ela fez isso em homenagem a mim. No  maravilhoso?
Bem, acho que j disse tudo. Gostaria de saber qual ser sua atitude, com relao a Theo. Talvez o senhor pudesse ajud-lo, j que nada mais poder fazer por minha irm...  muito tarde, agora, sabe."
Era isso, e muito mais, que deveria dizer quele homem, Catherine bem o sabia. Entretanto, a voz no lhe obedecia. Parecia prisioneira em sua garganta, embora isso no fizesse o menor sentido. Quantas vezes ela pensara no que diria a Samuel Winston? Infinitas vezes. Ento, por que no falava? Por que no dava vazo, enfim,  revolta acumulada em seu peito ao longo dos ltimos meses?
Talvez porque Samuel fosse muito diferente do que ela imaginara... No exatamente na aparncia, que pouco diferia do escritor que ela vira retratado em tantas revistas e capas de livros. Tratava-se, na verdade, de outro fator. Um fator quase impalpvel...
Catherine viera at ali, pronta para enfrentar um homem calculista, desprovido de sentimentos. Um homem que tivera coragem de ignorar a gravidez de Helenna e de contribuir, de algum modo, para que ela desistisse de viver.
Entretanto, Samuel Winston nem longe parecia-se com esse monstro...
Alis, Monstro era o apelido que Catherine lhe dera, desde que soubera de sua atitude cruel com relao a Helenna. Que no a amasse, bem... era um direito seu. Mas que lhe negasse apoio durante a gravidez e o parto... era simplesmente imperdovel.
De qualquer forma, Catherine pensou, com amargura, Samuel Winston no fora o primeiro e nem seria o ltimo homem do mundo a agir assim.To logo formulou esse pensamento, ela se arrependeu. No era justo generalizar os homens. Havia muitas pessoas de bom carter e bom corao, independente do sexo...
Catherine teria continuado nessa linha de pensamento, no fosse o enorme co de plos cor de caramelo e olhos vivazes dar um salto em sua direo, fazendo-a perder o equilbrio.
 V com calma, Dougal  Samuel interveio.  Se quer fazer amizade com nossa visitante, trate de ser menos afoito.
  Est tudo bem.  Catherine estendeu a mo e deixou que o co a farejasse. Depois, num gesto suave, acariciou-lhe a cabea.  Pronto. Acho que agora somos amigos.
O cachorro abanou a cauda, em sinal de afeto e alegria.
 Puxa, ele se afeioou rpido a voc  Samuel comentou, com um sorriso que parecia tornar a tarde de vero ainda mais luminosa.  Se bem que isso no me espanta... Pois Dougal tem um carinho desmesurado pelos seres humanos em geral.
Catherine pensou numa frase clebre, de cujo autor no se recordava: "Quanto mais conheo os homens, mais prefiro os cachorros".
  Dougal, que tal continuar a roer aquele osso que lhe dei h pouco?  Samuel disse ao co, que pareceu entender cada palavra. Correndo alegremente, abocanhou um grande osso que jazia sobre o gramado e afastou-se.
Catherine e Samuel o observaram por alguns momentos.
 Ele parece um co treinado, no  mesmo?  Samuel comentou. Sem esperar pela resposta, concluiu:  Pois saiba que nunca o levei a um adestrador. Dougal  muito inteligente e nos entendemos s mil maravilhas.
 Tanto melhor.  Foi o comentrio seco de Catherine, que mais uma vez se surpreendia... Pois Samuel no estava se enquadrando na imagem pr-fabricada que ela fazia a seu respeito. Um homem sem sentimentos no daria tanta importncia a um animal de estimao... A menos que tivesse algum interesse sobre ele, Catherine pensou.
Bem, de fato era vantajoso, para Samuel, ter um cachorro como Dougal: um co de guarda barato, que impunha muito respeito e mantinha os intrusos a distncia.
 Srta. Glenn...  a voz de Samuel interrompeu-lhe as divagaes  acho que ainda no nos cumprimentamos.  Estendendo a mo, ele acrescentou:  E um imenso prazer conhec-la.
 O prazer  todo meu  ela declarou, num tom polido, correspondendo ao cumprimento.
Seria impresso, Catherine se perguntou, ou Samuel Winston estava retendo sua mo entre as dele, por mais tempo do que o habitual?
E, o que era ainda pior, ela estava enrubescendo de embarao.
Detestando-se por isso, Catherine retirou a mo rapidamente, como se o contato a queimasse.
 Perdoe-me se lhe pareci rude, ainda h pouco, quando nos falamos pelo interfone  Samuel retratou-se.
 No h o que desculpar  Catherine afirmou, num tom polido, evitando-lhe os olhos.
 Para ser franco, fiquei decepcionado pelo fato da srta. Miranda Gladson ter enviado outra pessoa, em seu lugar. Afinal, ela sempre fez questo de me atender pessoalmente.
 Como j lhe falei, Miranda est muito ocupada, hoje.
 Compreendo. E se a enviou em seu lugar,  porque confia plenamente em sua capacidade  Samuel comentou, num tom amvel.  Bem, vamos entrar?
Num gesto natural, ele tomou-lhe o brao e conduziu-a at a entrada principal da casa. Abriu a porta, entalhada em madeira de lei, e deu-lhe passagem.
  Fique  vontade, srta. Glenn.
 Obrigada, sr. Winston  Catherine murmurou, terrivelmente incomodada. O toque da mo de Samuel em seu cotovelo causava-lhe estranhas sensaes.
Alis, tudo estava acontecendo de um modo muito diferente do qual ela imaginara.
Num silncio tenso, Catherine seguiu Samuel pelo hall, at a sala, mobiliada com extremo bom gosto e um toque de ousadia.
Os mveis, de madeira clara, com estofamento verde-musgo, davam um qu de leveza ao ambiente. Uma tapearia, retratando uma paisagem tropical, destacava-se numa parede. Na outra, havia uma reproduo de um quadro de Vincent Van Gogh, que chamou a ateno de Catherine.
Isso no passou despercebido a Samuel, que com um sorriso amvel, comentou:
  Vejo que gosta dele...
  um de meus pintores preferidos  ela declarou, com os olhos fixos no quadro, que retratava um caf em Paris.  Pena que no tenha sido reconhecido como artista, enquanto viveu... Jamais conseguiu vender um quadro.
  Mas o irmo dele, Theo, comprou um.
  Apenas por caridade  Catherine replicou, num tom amargo.  Pobre Vincent Van Gogh! Imagino o quanto ficaria feliz, se soubesse que algum dia seria considerado um dos maiores artistas do mundo. Sua vida foi triste e trgica.
 Mas sua obra permanece  Samuel sentenciou.
 Isso no diminui o sofrimento pelo qual Vincent Van Gogh passou.
  Claro que no  ele concordou, com um suspiro.  Na verdade, os felizardos somos ns... Que temos acesso a sua bela obra.
Catherine fitou-o, admirada. Ali estava, mais uma vez, a prova de que Samuel Winston em nada se parecia com o Monstro que ela imaginara. E isso a deixava confusa. Mas as aparncias s vezes enganavam.
"De qualquer modo, ele tem mesmo de possuir alguma sensibilidade, j que escreve para crianas", Catherine refletiu, antes de afirmar:
 Bem, sr. Winston, creio que no estamos aqui para discutir sobre pintura...
Um tanto chocado por aquela sbita mudana de tom, Samuel assentiu:
 Claro.  Apontando uma poltrona, disse com amabilidade:  Sente-se, por favor.
  Obrigada  Catherine obedeceu.
  Posso lhe fazer um pedido?
 Sim  ela respondeu, colocando-se na defensiva.  Do que se trata, sr. Winston?
 Gostaria que parasse com esse tratamento formal. Meus amigos me chamam de Sammy.
 Mas eu no sou sua amiga, sr. Winston  Catherine argumentou, rspida. Dando-se conta de que talvez estivesse exagerando em sua agressividade, acrescentou num tom mais ameno:  Entretanto, se preferir, posso cham-lo simplesmente de Samuel.
 Certo  ele aquiesceu, com um gesto de cabea. E a Catherine no restou outra alternativa, seno dizer:
 Quanto ao senhor... Quero dizer, quanto a voc, Samuel, tambm pode tratar-me pelo primeiro nome.
 Est bem... Catherine. Creio que assim poderemos nos entender, de um modo mais descontrado.
Ela nada respondeu.
Descontrao era uma das ltimas coisas que desejaria compartilhar com Samuel Winston, neste mundo... Ou em qualquer outro.
  Voc toma um caf?  ele ofereceu, solicito.
  Sim, obrigada. Puro e sem acar.
 Vejo que  muito inteligente, alm de bonita  Samuel comentou, com aquele sorriso capaz de derreter o corao de uma esttua de gelo...  Puro e sem acar  a nica maneira decente de se tomar essa bebida maravilhosa. Desse modo podemos desfrutar plenamente seu sabor sutil. Bem, com licena... Vou providenciar nosso caf.  Ele j ia se afastando, mas voltou-se para dizer:  Aposto que voc vai adorar o caf que tenho aqui em casa. Veio diretamente do Brasil... E isso j diz tudo, no?
Catherine concordou, com gravidade. Afinal, sabia que o caf brasileiro era um dos melhores do mundo.
Mas assim que ficou sozinha, na sala, Catherine sentiu-se novamente invadida por uma onda de revolta. Com que ento Samuel Winston s tomava caf brasileiro... Um privilgio de poucos!
"Enquanto isso, trabalho todos os dias de minha vida para proporcionar a Theo uma estrutura e um conforto razoveis", Catherine pensou, indignada. Em seguida lembrou-se do quanto ela, a me e o padrasto haviam se empenhado para proporcionar, a Helenna, um final de vida digno.
 E o petulante Samuel Winston, longe de imaginar todas essas agruras, no abre mo de seu legtimo caf brasileiro...  Catherine resmungou, furiosa.
Como consultora de informtica, ela sempre ganhara razoavelmente bem.
Mas durante os ltimos meses de vida de Helenna todo o seu dinheiro fora para pagar as contas do hospital. E isso no teria sido suficiente, se Marjorie e Gregory no houvessem colaborado.
Marjorie era me de Catherine e de Helenna, casada em segundas npcias com Gregory, pai de Helenna.
Um suspiro brotou do peito de Catherine. E uma profunda mgoa juntou-se a seu sentimento de revolta.
Desde antes da morte da irm, e mesmo depois, Catherine nunca mais conseguira estabilizar sua situao econmica.
Ao perder Helenna, ficara desorientada por vrias semanas, at conseguir reiniciar a vida, sozinha, e com Theo sob sua responsabilidade.
Marjorie e Gregory haviam ficado por alguns dias, em sua casa, aps a morte da filha. Mas depois tinham partido para a Amrica do Sul, onde estavam fazendo um trabalho arqueolgico.
J fazia vrios anos que Catherine trabalhava como free-lance, prestando consultoria a vrias empresas, tornando-se bastante respeitada no mercado, devido a sua competncia.
O problema era que ela no conseguia dar conta de tantos pedidos. Tinha de dividir o tempo entre os cuidados com Theo e o trabalho... Ambos muito exigentes, claro.
Se o dia ao menos tivesse mais do que vinte e quatro horas, talvez ela conseguisse arranjar tempo para dar conta de todos os compromissos. Era isso que Catherine costumava dizer a Miranda Gladson, sua amiga e proprietria da Agncia de Empregos Homebody.
 No se iluda, querida  Miranda retrucava, com seu bom humor habitual.  Se as horas do dia fossem dobradas, os compromissos tambm o seriam...
De sbito, Catherine lembrou-se da expresso preocupada de Miranda, ao despedir-se dela, no incio da tarde:
 Veja l o que vai fazer, amiga  Miranda havia dito.  No deixe que seu gnio impulsivo a domine.
 No deixarei  Catherine prometera, com um sorriso confiante.  E tampouco prejudicarei sua reputao, junto ao Monstro.
 Pronto!  Miranda havia exclamado, aflita.  Voc ainda nem o viu e j est perdendo o controle.
 Fique tranqila... Sei perfeitamente bem o que estou fazendo.
  Quanto a mim, j estou arrependida por ter concordado com essa loucura  Miranda confessara.
Catherine a havia posto a par de seu plano, que a princpio era muito simples: ela apenas desejava conhecer Samuel Winston. Queria inform-lo de que era pai de Theo, filho de Helenna, a quem ele hostilizara e magoara terrivelmente, ao dizer:
"Sinto muito, mas seu beb deve ser filho de outro homem."
Como tivera coragem de ser to cruel? Como pudera duvidar a palavra de Helenna? Onde arranjara sangue-frio suficiente para ofend-la dessa maneira?
Essas perguntas, e muitas outras, assaltavam a mente de Catherine, numa velocidade estonteante.
Fazendo um intenso esforo, ela ordenou-se calma. De nada adiantaria perder o controle. J se indignara demais com Samuel Winston.
"J basta de revoltas", disse para si. Era tempo de agir. E teria de faz-lo com muito cuidado, para no prejudicar a relao profissional de Miranda Gladson com Samuel Winston, que freqentemente requeria seus servios.
Um sorriso insinuou-se nos lbios contrados de Catherine. Decididamente, Miranda era uma boa amiga, ela concluiu, comovida. Mesmo sabendo de seu gnio impulsivo, e conhecendo toda a situao que envolvera Helenna e Samuel, Miranda a ajudara a aproximar-se daquele homem.
Era verdade que, a princpio, rejeitara totalmente a idia. Mas depois Catherine conseguira convenc-la. E lhe seria eternamente grata, por isso.
O melhor jeito de agradecer Miranda, de homenagear a memria de Helenna, de honrar o pequeno Theo e tambm a ela prpria, era dar uma dura lio em Samuel Winston.
Como seria essa lio... Era algo que Catherine ainda no sabia.
A princpio, tinha pensado em simplesmente declarar a verdade a Samuel e observar sua reao. Queria ver se ele teria coragem de portar-se da mesma forma fria e cruel com que tratara Helenna.
Mas, agora, ela j no sabia ao certo como agir ou pensar. Detestava admitir, mas o fato era que Samuel Winston a havia desconcertado.
Como um guerreiro que ao encontrar um campo de batalha diferente do esperado retirava-se para repensar os planos de ataque, Catherine agora sentia necessidade de arquitetar um novo projeto.
Seu objetivo, porm, continuava o mesmo: encontrar o caminho para o corao de Samuel Winston, convenc-lo a reconhecer Theo Glenn MacAllister como seu filho legtimo.
Assim, o pequeno Theo, que j cresceria sem o afeto de sua verdadeira me, ao menos conheceria o amor de um pai.
Claro que ela, Catherine, faria de tudo para preencher a falta de Helenna. Mas, por mais que se esforasse, seria sempre a tia do pequeno Theo. Por mais que o amasse, nunca poderia substituir Helenna.
 Olha o caf!  Samuel anunciou, entrando na sala, com uma bandeja.
Catherine estreitou os olhos para observ-lo. Novamente a revolta cresceu-lhe no ntimo. Ali estava ela, s voltas com tantos problemas srios... E enquanto isso Samuel se deleitava com o legtimo caf brasileiro. Era mesmo o cmulo!
 Aqui est  disse Samuel, longe de imaginar os pensamentos que cruzavam a mente de Catherine.  Puro e sem acar, como deve ser.  Depositou a bandeja sobre uma mesinha de centro, com tampo de mrmore, serviu duas xcaras e ofereceu-lhe uma.  Prove e d sua opinio sincera.
  Deixe para l.  Ela cruzou os braos, encarando-o com hostilidade. E ante a expresso surpresa de Samuel, acrescentou:  De repente, perdi a vontade.





CAPTULO II


O clima de tenso era quase palpvel, no ar. Imvel, em sua poltrona, Catherine sentia o nervosismo atingir um nvel insuportvel.
A calma com que Samuel saboreava o caf, em pequenos goles, s servia para exasper-la ainda mais.
Vrios minutos se passaram, com uma lentido que mais parecia uma angustiante eternidade.
Catherine contemplou a xcara de caf que ela havia rejeitado, no centro da bandeja. Aquela altura, j se arrependia por ter agido de maneira to impetuosa.
Agora, podia estar tranqilamente saboreando a bebida fumegante, pensando na melhor maneira de revelar a verdade a Samuel Winston. Entretanto, estava prestes a sofrer uma crise nervosa.
Se havia algo de que ela necessitava, no momento, era calma... Exatamente o que mais lhe faltava, Catherine concluiu, fechando os olhos por um instante. A imagem de uma Helenna sorridente e bemdisposta invadiu-lhe a memria, com incrvel nitidez. E Catherine recordou a tarde em que a irm chegara em casa radiante, trazendo uma grande novidade: a editora para a qual prestava servios de free-lance, como diagramadora e ilustradora, a havia contratado para ilustrar um livro de histrias infantis.
 E o autor , nada mais, nada menos, do que o talentoso Samuel Winston! Helenna anunciara, entusiasmada.
 No o conheo  Catherine confessara.  Mas se voc diz que ele  bom...
 O homem  simplesmente timo. Seu retrato est em todas as revistas literrias da atualidade. Alis, ele acaba de ganhar um prmio pela criao do Ursinho Jimmy. O primeiro livro que Samuel escreveu, tendo esse personagem como protagonista, foi um grande sucesso. Agora, ele lanar um segundo volume, com Novas Aventuras do Ursinho Jimmy. E eu ilustrarei essa obra-prima! No  fantstico, maninha?
 Sim!  Catherhie exclamara, emocionada.  Estou feliz por voc, querida.  Com um largo sorriso, acrescentara:  Saiba que daqui por diante vou me manter muito bem informada a respeito desse tal Samuel Winston. Afinal, se ele vai trabalhar com minha irm...
 Sua irm  quem vai trabalhar com ele, garota  Helenna a corrigira, retribuindo o sorriso.  E isso  uma grande honra, sabe?         
 Para Samuel tambm. Pense nesse aspecto da situao, sim? No  todo dia que um escritor de sucesso consegue uma ilustradora to talentosa, para seus livros.
 Oh, aposto que houve milhares de candidatos ao cargo. Nem sei por que a editora me escolheu.
 No sabe?  Catherine fitara a irm com um misto de censura e carinho.  Este  seu problema, querida: voc no se valoriza. Naturalmente, eles a escolheram por sua competncia e talento.
 H muita gente competente e talentosa necessitando de trabalho. O que tive foi uma grande sorte, isso sim.
 Pense como quiser. Mas no se esquea de valorizar sua capacidade, sim?
 Oh, no preciso me preocupar com isso, j que minha adorvel irmzinha vive me superestimando...
Ambas riram e abraaram-se calorosamente. Naquele momento, nem de longe suspeitavam do sofrimento que estava por vir...
Dois meses depois de comear a trabalhar para Samuel Winston, Helenna cara irremediavelmente apaixonada. E como no poderia?
Afinal, ela era uma garota sensvel e romntica, cheia de vida e sonhos por realizar.
Catherine, que sempre apoiara a meio-irm, incondicionalmente, preocupara-se com a situao... Teria sido intuio feminina?, ela se perguntaria, tempos depois.
O fato era que Catherine temia por Helenna. Conhecia seu carter sonhador e receava que Samuel Winston no tivesse o devido cuidado, com ela.
 V devagar, minha querida  Catherine a aconselhava.  No precipite as coisas, para no sofrer depois.
 Ora, voc se preocupa demais  Helenna retrucava, inabalvel.  Acha que no sei cuidar de mim mesma?
 Acho, no... Estou absolutamente certa disso.
 Voc  quatro anos mais velha do que eu, ma- ninha. Mas nem por isso precisa se sentir minha me. Alis, ns temos uma me maravilhosa, lembra-se?
 Sim, ela  realmente incrvel... Mas mora muito longe e, por isso, no tem tempo de cuidar de ns.
 J somos bastante crescidas e no precisamos de uma bab em tempo integral.
  Oh, j chega!  Catherine impacientava-se.  Deu para perceber que voc no vai, realmente, me ouvir. Podemos ficar aqui, argumentando durante horas a fio... Mas voc no abrir mo de seu ponto de vista.
  Pode-se dizer o mesmo a seu respeito, srta. Catherine Glenn.
Aquelas discusses sempre terminavam com um abrao, ou um sorriso cheio de compreenso.
Catherine sabia que, de algum modo, Helenna tinha razo: ela se preocupava excessivamente. Mas, naquela circunstncia, as aflies de Catherine tinham fundamento... Como o prprio tempo viria provar.
Quando Helenna lhe contara que Samuel Winston estava se divorciando da esposa, Catherine no se surpreendera. Afinal, j tinha lido essa notcia numa revista.
Que Samuel estivesse se separando, era um problema dele. Mas que esse fato o deixasse carente, e que Helenna no resistisse  tentao de consol-lo... Bem, era um problema de Catherine.
Mais uma vez, ela abordara a irm para uma conversa sria... Que terminara como todas: com seu jeito encantador de dizer no, Helenna muito gentilmente lhe recomendara que a deixasse em paz e que parasse de trat-la como uma adolescente:
 Afinal, j tenho dezenove anos, minha querida Catherine.
 Este  o grande perigo, maninha. Voc acabou de completar dezenove e sabe to pouco sobre a crueldade dos homens...
 Ora, algum que escreve estrias para crianas no pode ser de todo mau  Helenna retrucara.
E Catherine prometera a si mesma que nunca mais tentaria aconselh-la.
O novo livro de Samuel Winston, tendo como protagonista o Ursinho Jimmy, fora lanado em grande estilo, alcanando um sucesso meterico entre o pblico infantil.
Na poca, Helenna comentara com Catherine sobre uma idia que dera a Samuel: a de criar um companheiro de aventuras para Jimmy. Ele aprovara a sugesto e freqentemente a abordava para conversar sobre o assunto.
Certo dia, Catherine perguntara  irm se ela teria alguma participao nos lucros do prximo livro de Samuel. Estranhando a indagao, Helenna afirmara:
 Ora, eu j recebo pelo meu trabalho como ilustradora, no?
 Acontece que voc agora est dando vrias idias a Samuel Winston. E ele lucrar com elas, percebe?
Sorrindo, Helenna apenas comentara:
  Voc se preocupa com cada coisa, maninha...
Algum tempo depois, Helenna descobrira-se grvida. Informara Catherine sobre o fato, com uma alegria quase infantil.
  Aposto que Samuel vai adorar saber disso...
Embora j no estejamos nos relacionando  acrescentara, baixando os olhos.
 Como assim?  Catherine espantara-se.  Vocs dois j no...
 Tudo foi muito passageiro.  E Helenna apressara-se a dizer:  Mas tenho certeza de que Samuel ficar feliz com a notcia.
 Assim espero, maninha...  Catherine afirmara, apreensiva.  Assim espero.
E ento a vida se transformara num terrvel pesadelo.
Na noite seguinte, Helenna voltara para casa arrasada, trazendo duas notcias: uma triste e, a outra, terrvel...
Estava desempregada. E Samuel Winston lhe dissera, com todas as letras, que ele no poderia ser o pai da criana que ela trazia no ventre. Ofendida em seu amor-prprio, Helenna pedira demisso na mesma hora.
Catherine recebera a notcia com indignao. O primeiro impulso fora procurar Samuel e dizer-lhe umas boas verdades. Mas Helenna a impedira, ou melhor: suplicara-lhe que nada fizesse. E ela cedera... temporariamente.
Afinal, Helenna estava grvida e devia ser poupada de qualquer abalo emocional. Decidida a proporcionar  irm uma gestao tranqila e sem sobressaltos, Catherine comeara a trabalhar at nos fins de semana, para aumentar o nvel financeiro da famlia que, afinal, receberia em breve um novo membro.
 Voc bem que me avisou  Helenna lamentava-se, vez por outra.  Os homens realmente podem ser cruis, maninha. Mas tive de sofrer muito para descobrir essa verdade to simples.
 No pense nisso, ao menos por enquanto  Catherine recomendava.  Depois que voc tiver o beb, veremos o que fazer.
Alm dos homens, o destino tambm podia ser cruel... Era isso que ambas descobririam, em breve.
A gravidez de Helenna revelava-se cada vez mais problemtica, a cada dia.
Aos seis meses de gestao, ela corria um srio risco de perder a criana e, talvez, a prpria vida.
Marjorie, me de Helenna e Catherine, viera da Amrica do Sul com o marido, Gregory, pai de Helenna. Ambos apoiavam Helenna, tanto emocional quanto financeiramente, enquanto Catherine esgotava-se de trabalhar. Mas os remdios de Helenna eram caros, bem como o tratamento que ela recebia, no hospital.
O tempo do beb nascer chegara.
O obstetra que cuidava de Helenna no relutara em optar por uma cesariana, como alis no poderia deixar de ser.
Entretanto, Helenna sofrer uma queda de presso durante a cirurgia e por pouco no perdera a vida... Outras complicaes se seguiram, embora, felizmente, o beb tivesse nascido saudvel e forte.
A sade de Helenna, porm, estava para sempre comprometida. Os problemas de presso e circulao agravaram-se terrivelmente. E poucos dias depois de Theo Glenn MacAllister completar um ms de vida, Helenna sofrer um ataque cardaco fulminante, que a levara deste mundo.
 Onde  que voc est?  A voz de Samuel Winston arrancou Catherine daquelas tristes recordaes.
 O que disse?  ela indagou, piscando os olhos.  
 Voc parecia to longe daqui...
 Desculpe.  Catherine retesou-se na poltrona.  Eu... estava distrada, apenas isso.
 Deu para perceber.  Samuel colocou sua xcara de caf, j vazia, sobre a bandeja.  E, se me permite um comentrio sincero, voc me pareceu muito triste e no apenas... distrada.
Catherine no respondeu. Mas seu rosto de traos delicados contraiu-se numa expresso hostil. Sua amargura estaria assim, to evidente?, perguntou-se, incomodada. Ser que, aos vinte e quatro anos, ainda no havia aprendido a guardar as emoes s para si?
 Posso fazer uma pergunta?  Samuel indagou, num tom amvel.
  No  ela respondeu, simplesmente.
 Bem...  Ele sorriu, exibindo dentes muito brancos e perfeitos.  No posso acus-la de falta de sinceridade. E isso, longe de me aborrecer, causa-me admirao.
  Costumo falar o que penso  Catherine declarou, num tom seco.
 Eu tambm.
"Mentira", ela contestou, em pensamento, tomada por uma onda de fria. "No tente bancar o honesto, a essa altura dos acontecimentos, sr. Winston. Voc j teve chance de provar que tinha carter... Mas no o fez. Ou melhor, mostrou perfeitamente do que era capaz."
 Vamos tratar de negcios  Catherine props, rispidamente.
  S depois que voc explicar por que tem tanta raiva de mim. As palavras de Samuel a pegaram de surpresa.
  O que o faz pensar assim?  ela reagiu, confusa.
 Todo escritor tem uma vocao muito grande para ler as pessoas... No sabia disso?
Catherine no respondeu. E ele prosseguiu:
 Desde que entramos nesta sala, tenho a ntida impresso de que voc est tentando se controlar para no me atirar alguma coisa na cabea.  Apontando uma estatueta de bronze, sobre a mesinha de centro, acrescentou:  Isto, por exemplo. Ou aquilo...  E indicou um vaso de samambaias que pendia do teto.  Aps uma pausa, concluiu:  Talvez voc esteja ressentida pelo modo como a tratei, quando nos falamos pelo interfone. Mas saiba que posso ser bem mais desagradvel, quando estou escrevendo e algum me interrompe. A srta. Miranda Gladson deveria t-la alertado sobre isso.
De fato, Catherine recordava-se de que Miranda havia comentado algo sobre o carter temperamental de Samuel Winston.
  Realmente, ela me falou a respeito...
 Mas, pelo visto, de nada adiantou  Samuel retrucou, fitando-a com uma intensidade constrangedora.  Pois voc parece terrivelmente irritada comigo.
Catherine engoliu em seco. Aquele homem parecia ter o estranho poder de ler-lhe os mais secretos sentimentos. Isso s servia para piorar ainda mais as coisas.
 Que tal nos atermos ao nico assunto que interessa, sr. Winston?  ela props, no tom mais impessoal que conseguiu.
 Samuel  ele a corrigiu.  Combinamos que nos trataramos pelo primeiro nome, lembra-se?
 Certo  Catherine assentiu, dizendo a si mesma que no poderia continuar to tensa, que era preciso recuperar o autocontrole. Mas como, se os olhos azuis de Samuel pareciam devass-la?  Bem, no estamos aqui para tratar de problemas pessoais e sim de trabalho. De acordo com as informaes que recebi de Miranda, o senhor precisa de uma governanta, por quinze dias...
  Ento voc admite que h um problema?  a pergunta de Samuel soava mais como uma constatao.
  Como?  Catherine franziu o cenho.
 Voc mesma acaba de dizer que no estamos aqui para tratar de problemas pessoais. Portanto, voc admite que tem um problema pessoal comigo....Certo?
  Oh, por favor, j chega dessa conversa sem sentido  ela protestou, exasperada.  Vamos falar do que realmente interessa, ou no?
  O que a faz acreditar que conseguiremos nos entender no campo profissional, se no conseguimos entrar em acordo no campo pessoal?
O silncio voltou a cair entre ambos. Mas, dessa vez, foi Catherine quem o quebrou.
 Quando duas pessoas olham para o mesmo ponto, tm uma grande chance de chegar  compreenso  ela sentenciou.  Portanto, se nos empenharmos em firmar um acordo a respeito de trabalho, talvez consigamos, tambm...
 Um entendimento pessoal  ele completou, impressionado.  Gostei disso, Catherine Glenn. Mas, ainda assim, no desisti de entender o motivo de sua antipatia gratuita com relao a mim.
Catherine suspirou. Se Samuel Winston pudesse imaginar o que a trouxera ali... Certamente no estaria to intrigado.
 Isso raramente me acontece, sabe?  ele confidenciou, inclinando-se em sua direo.  Em geral, consigo uma boa empatia com as pessoas.
Ela assentiu com um gesto de cabea, contendo a impacincia. E voltou a insistir no assunto:
  Ser que enfim podemos, enfim, falar de trabalho?
 O fato  que uma pessoa no consegue se concentrar num assunto, se estiver preocupada com outro... Entende?
 Sim  Catherine concordou, um tanto confusa.  Mas o que isso tem a ver com...
 Voc mal pode disfarar a hostilidade que sente por mim  ele a interrompeu.  E enquanto isso acontecer, no ter clareza suficiente para tratarmos de trabalho.
  Eu desisto.  Catherine levantou-se. Sua tolerncia havia chegado ao fim. Se continuasse ali por mais um minuto, acabaria realmente atirando um vaso ou uma estatueta sobre Samuel Winston. E isso poria tudo a perder.  J que no conseguimos chegar a um acordo, ento irei embora.
 Acho que j entendi!  Samuel ergueu-se, estalando os dedos.
 Entendeu... o qu?  ela indagou, no auge da confuso.
 Acho que a fiz recordar-se de outra pessoa... talvez de um homem. Devo ser muito parecido com algum que voc detesta, ou que a tenha magoado terrivelmente.
Boquiaberta, Catherine deixou-se cair novamente na poltrona.
 Bem, quando voc parar de me analisar, talvez possamos tentar novamente...
 Desculpe, mas observar as pessoas faz parte do meu trabalho, assim como ocorre com todos os escritores.
  Mas voc no escreve para crianas?
  Sim, mas nem por isso deixo de fazer uma anlise profunda a respeito de meus personagens. Afinal, no se pode mentir para as crianas. Alis, no se pode mentir para ningum. A nica diferena entre a boa literatura para adultos e a boa literatura para crianas  o vocabulrio, o tom das palavras, a cadncia...
"Acho que entendi, afinal, por que Helenna se apaixonou por esse homem", Catherine pensou, baixando temporariamente a guarda.
No havia dvidas de que Samuel era inteligente e perspicaz, alm de encantador. Parecia guiar-se por pontos diferentes do da maioria das pessoas. No falava de coisas prticas, mas de sensaes... No falava de dinheiro, mas de personagens. E, sobretudo, prezava a sinceridade.
Prezaria mesmo?, Catherine perguntou-se, invadida por uma onda de amargura. Se isso fosse verdade, ele no teria duvidado da palavra e da honra de Helenna.
Decidida a reerguer a guarda contra Samuel Winston, ela o encarou. Entretanto, ele voltou a surpreend-la, com uma pergunta ainda mais direta:
 Voc tem filhos, Catherine Glenn?
  Creio que esse fato...
 No  da minha conta  ele completou, com aquele sorriso desarmante.  Voc est absolutamente certa e, se no quiser, nem precisa responder. Mas acontece que eu gostaria de conhec-la um pouco melhor, antes de tratar de negcios.
Estreitando os olhos verdes, Catherine retrucou:
 Tudo o que voc precisa saber a meu respeito refere-se unicamente a minha competncia e capacidade de substituir sua governanta por quinze dias. Fui clara?
 Como a gua, Catherine Glenn  ele respondeu, ainda sorrindo.  Como a srta. Miranda Gladson j deve t-la informado, minha governanta est de frias. E como tenho de fazer uma turn, preciso que algum cuide da casa e de Dougal.
Catherine respirou, aliviada.
  Enfim chegamos ao ponto  comentou, relaxando.
 Isso mesmo.  Com uma expresso marota, que Catherine no teve tempo de identificar, ele insistiu:  E agora me conte: voc tem filhos?
 Algum j lhe disse que a indiscrio no  de bom-tom, para um escritor ou para qualquer outra pessoa?
 Tudo bem.  Samuel parecia no se perturbar com nada e isso deixava Catherine terrivelmente incomodada.  Se voc tem problemas para tratar desse assunto, no vou for-la.
Aquilo era demais! O sangue subiu s faces de Catherine que, furiosa, rebateu:
 No h problema algum a esse respeito, Samuel Winston. Apenas, como eu j disse, acho que esse fato no  de sua conta!
  Se lhe parecesse to simples, voc j teria respondido.
  Voc nunca desiste de uma discusso?  ela o interpelou, no auge da raiva.
 Quase nunca  ele respondeu, com aquela calma exasperante.
 Tenho uma criana  Catherine declarou, por fim, sentindo-se derrotada mais uma vez. Decididamente, aquele homem era impossvel.
  Menino ou menina?
 Menino. Trata-se de um beb de seis meses.  Num tom irnico, Catherine acrescentou:  To cedo voc no o ver na fila para comprar seus livros, nas tardes de autgrafo.
 Tomara que minhas obras ainda estejam nas bibliotecas e livrarias, quando seu filho aprender a ler.
As palavras de Samuel, pronunciadas num tom de total inocncia, desconcertaram Catherine. Aquele homem era imprevisvel, alm de encantador, charmoso e obstinado em vencer discusses...
  Como se chama seu filho?  ele indagou, de sbito.
  Theo.
   um belo nome.
  Tambm acho.
Samuel a fitava com tamanha intensidade, que Catherine enrubesceu. Ali estava aquele homem, de novo, devassando-a em seus mais secretos pensamentos. E como a confirmar suas suspeitas, perguntou:
 Por acaso eu a fao recordar-se do pai de Theo?
Um golpe em pleno estmago no a teria abalado tanto, Catherine pensou, desviando o rosto.
 Sim  respondeu, ao fim de um longo momento.
 E voc...  Samuel relutou, antes de concluir a frase:  no mora com ele. Certo?
Ela respondeu com um gesto afirmativo de cabea, o olhar fixo no assoalho de tbuas largas, muito bem polido.
  Mas gostaria? Catherine riu, com amargura.
 Eu no viveria com o pai de Theo, nem que ele fosse o ltimo homem sobre a terra.
 Curioso...  Samuel no parecia chocado, apenas pensativo.  Voc teve um filho com esse homem. E, no entanto, no quer que ele faa parte de seu mundo.
  Exato.  Armando-se de coragem, Catherine o encarou com firmeza.  Agora, basta de interrogatrios. Com tantas perguntas, voc j teve tempo de formar uma idia a meu respeito. Portanto, responda de uma vez: vai me contratar como sua governanta temporria, ou no?
Samuel levou alguns instantes para dizer:
 Disso, no resta dvidas. De algum modo, voc e eu j sabamos que trabalharamos juntos, desde o primeiro momento em que nos vimos.
 Do que voc est falando?  ela indagou, sem entender.
 De intuio... Uma matria impalpvel, com a qual a maioria dos artistas sabem lidar. E, por falar nisso, tenho a ntida impresso de que ns...  Samuel interrompeu-se.
Catherine ia interpel-lo, mas calou-se. Afinal, talvez no quisesse, ou no pudesse, ouvir qual era a ntida impresso de Samuel Winston a respeito de ambos.
  Quando devo comear?  ela perguntou.
  Que tal amanh?
  E quanto a meu salrio?
  Voc far seu preo.
  No quer discuti-lo?
  No.
Catherine no se surpreendeu com a resposta de Samuel. Pois Miranda j a havia avisado de que ele no se importava em pagar bem, desde que o servio fosse desempenhado com total competncia.
Tambm Catherine no estava preocupada com dinheiro, embora precisasse muito dele.
Mas essa no era a questo principal. No quando se tratava do futuro de Theo, o ser a quem mais amava no mundo.



CAPTULO III


O dia amanheceu radiante. O vero australiano j ia pelo meio. O movimento no porto de Melbourne era intenso. Catherine morava num pequeno mas confortvel apartamento, prximo a uma praia tranqila, onde por vezes gostava de passear com Theo.
Mas j fazia tempo que no desfrutava esse prazer. Desde a morte de Helenna, e mesmo antes, sua vida era uma seqncia de atribulaes e desgaste.
Naquela manh, enquanto se aprontava para seu primeiro dia de trabalho como governanta de Samuel Winston, Catherine dizia a si mesma que deveria estar feliz... Afinal, estava comeando a realizar o principal objetivo de sua vida: aproximar Theo do pai, ou melhor: fazer com que Samuel Winston o reconhecesse como filho.
Entretanto, o estado de esprito de Catherine era sombrio. Havia passado uma noite difcil, cheia de sonhos perturbadores, e acordado com pssima disposio.
Felizmente o sorriso com que o pequeno Theo a recebera, ao v-la aproximar-se do bero, tinha lhe dado um pouco de nimo.
Agora, o pequeno Theo j estava pronto e ela tambm.
Para aquele dia, Catherine havia optado por um traje simples, bastante descontrado, como alis era seu estilo: jeans, camiseta colante de gola em "V" branca e tnis.
J tinha lavado e secado os cabelos ruivos, que lhe caam abaixo dos ombros. No rosto de traos delicados, nenhuma maquiagem. Apenas um creme hidratante para realar a maciez da pele, naturalmente corada.
Na bagagem, que Catherine havia arrumado na vspera, haviam dois vestidos sociais, muito elegantes, com todos os acessrios relativos. Era bem provvel que no precisasse us-los. Mas se acaso fosse necessrio... Bem, ela j estaria prevenida.
Catherine, ao contrrio da falecida Helenna, s vestia trajes sociais quando no havia outra opo. No mais, no abria mo do estilo esportivo, que alis lhe caa muito bem.
 Acho que est tudo pronto  Catherine pensou, em voz alta, parada no meio da pequena sala do apartamento, invadida de sbito por uma sensao de nostalgia.
Caminhou at a janela e debruou-se no parapeito. Contemplou o mar de guas azuis onde o sol se refletia, o cu lmpido e sem nuvens, os pssaros marinhos que davam  manh um toque de beleza e magia.
Faltavam dez minutos para as oito. O trnsito, porm, j se intensificava nas avenidas principais de Melbourne, sobretudo no centro comercial.
Catherine suspirou, enquanto afastava da testa uma mecha de cabelos ruivos. Sentia-se prestes a dar um passo definitivo em sua vida.
Estaria sendo exageradamente dramtica? Perguntou-se. Afinal, s ficaria fora durante quinze dias... Duas semanas... Metade de um ms.
Entretanto, tinha a ntida sensao de estar se despedindo daquele apartamento e da vida que at ento levara.
"Ando muito frgil e tensa", Catherine concluiu. "Este  o problema."
No podia se dar ao luxo de fraquejar. No quando havia tantas coisas importantes em jogo.
O que realmente precisava era encontrar a melhor forma de convencer Samuel Winston a assumir a paternidade de Theo. Se ele se recusasse, teria de achar um jeito de pression-lo... Isso seria muito difcil. Mas Catherine estava disposta a tudo, para alcanar seu objetivo.
Nos quinze dias que passaria na casa de Samuel, acabaria por conhec-lo melhor. E tambm por descobrir at onde ele havia explorado o talento de Helenna, que havia lhe dado idias sobre a criao de um personagem que seria companheiro de aventuras do Ursinho Jimmy. Samuel teria aproveitado suas sugestes? Teria usado Helenna para conseguir um sucesso ainda maior, entre os leitores infantis?
Nos ltimos meses, Catherine acreditava que sim, que Samuel fizera realmente isso. Mas depois de conhec-lo pessoalmente, no dia anterior, j no achava to provvel. Afinal, Samuel parecia ser criativo e talentoso. Certamente no precisava de ningum, para criar seus personagens...
De qualquer forma, Catherine estava disposta a esclarecer essa dvida. E teria tempo de sobra, para tanto.
Era curioso, ela pensou, filosoficamente... Antes de ficar frente a frente com Samuel Winston, sabia exatamente o que teria a dizer... Quantas vezes no repetira a declarao que faria, to logo deparasse com ele. Entretanto, as coisas haviam ocorrido de um modo bem diferente do planejado.
Era verdade que aquele homem possua um carisma, uma aura de fora e encanto, capaz de impressionar qualquer pessoa...
O telefone tocou, interrompendo as divagaes de Catherine e fazendo-a estremecer.
 Minha nossa  ela constatou, com desgosto.  Estou com os nervos  flor da pele.
A caminho do telefone, que ficava sobre uma mesinha baixa, ao lado do sof, Catherine pensou em no atender a ligao. J havia deixado uma mensagem gravada, na secretria eletrnica, informando o nmero do telefone da casa de Samuel Winston. Portanto, quem quer que a estivesse procurando, poderia encontr-la mais tarde.
O fato era que, naquele momento, Catherine no se sentia com a menor disposio para conversar. O telefone tocou pela terceira vez. Na quarta, a secretria eletrnica atenderia. Mas Catherine de sbito resolveu atender.
  Al?
  E voc, doura?
Boquiaberta, ela reconheceu a voz que soava do outro lado da linha. S havia uma pessoa, no mundo, que costumava cham-la dessa maneira: seu ex-noivo.
 Richard!  exclamou, espantada.  Aconteceu alguma coisa?
 No, minha querida... Apenas, acordei com muita saudade e resolvi ligar para dizer al.
 Al, Richard  Catherine retrucou, num tom seco.  Bem, agora preciso desligar.
  Por que tanta pressa? Ser que no podemos conversar um pouco?
  Creio que j no temos nada a nos dizer.
  Teramos, se voc houvesse mudado de idia, doura.
 Mas no mudei!  Catherine quase gritou. Fazendo um intenso esforo para se controlar, acrescentou, num tom mais ameno:  Escute, ns j discutimos muito sobre esse assunto. No chegamos a concluso alguma e jamais chegaremos. Portanto,  melhor que cada um cuide de sua prpria vida e tente ser feliz, no acha?
Um breve silncio se fez, do outro lado da linha. E quando Richard voltou a falar, sua voz denunciava um forte ressentimento:
  Engraado... Voc parece ter se recuperado muito rpido de nosso rompimento. Quanto a mim, fiquei arrasado. Alis, ainda estou. Na verdade, liguei justamente para dizer que ser muito difcil esquec-la, querida.
Deixando-se cair no sof, Catherine argumentou:
 No se esquea de que foi voc quem fez aquela exigncia absurda. Por mim, ns estaramos juntos at hoje.
  No se tratava de uma exigncia absurda, como voc diz... Mas de uma posio absolutamente sensata.
 Para mim, sua atitude tem outros nomes: crueldade, frieza e falta de sentimentos.
  Eu apenas no queria comear uma vida a dois, j com um grande problema.
Naquele momento, Theo comeou a choramingar, no quarto. Lanando um olhar apreensivo em direo ao corredor que para l conduzia, Catherine resolveu pr um fim quela conversa estril.
  Sinto muito, Richard, mas o pequeno ser que voc chama de um grande problema , para mim, a razo de estar viva. E agora, se no se importa, vou desligar.
  Aposto que ele est precisando de voc...  isso, no?
  Exato. Tenha um bom dia, Richard.  E Catherine desligou.
Dirigiu-se ao quarto a passos largos e no precisou, de muito tempo para descobrir o que se passava. O beb necessitava, urgente, de uma troca de fraldas.
Com a prtica adquirida ao longo dos ltimos meses, Catherine levou apenas uns poucos minutos para dar conta da tarefa.
Sentindo-se bem mais confortvel, Theo parou de chorar. Aconchegando-o contra o peito, Catherine disse, baixinho:
 Voc  a maior riqueza que possuo, neste mundo... Nem Richard, nem qualquer outra pessoa seria capaz de nos separar.
Duas semanas atrs, Richard Templeton havia dado um ultimato a Catherine: ou ela concordava em colocar Theo num internato de luxo, ou ele romperia o noivado.
Richard havia at mesmo entrado em contato com um internato, na Sua, que tinha profissionais altamente especializados em cuidar de crianas e at mesmo de bebs. Estava disposto a arcar com as despesas da estada de Theo naquela instituio, desde que ele ali permanecesse, at completar a maioridade.
 S assim poderemos construir uma vida a dois, sem interferncias...  ele dissera a Catherine, com a maior tranqilidade desse mundo.
A reao de Catherine fora a princpio de perplexidade, depois de indignao. E ento, numa voz estranhamente calma, ela sentenciara:
  Decididamente, Richard, teremos de romper nossa relao. Pensei que nos conhecssemos razoavelmente bem, mas agora vejo o quanto estava enganada... Pois se voc ainda no percebeu que Theo  a pessoa a quem mais amo no mundo, ento significa que no sabe nada a meu respeito.
Esse fora o incio de uma discusso acirrada, com muitas cobranas e ofensas de ambas as partes. Catherine ficara arrasada, mas nem por um momento duvidara de que estava agindo da maneira correta. Um homem que no aceitasse Theo jamais poderia faz-la feliz. Tal regra era absoluta e no permitia excees.
Nos primeiros dias aps o rompimento, Catherine lembrava-se dessa premissa, sobretudo nos momentos mais difceis. Pois chegara a gostar, realmente, de Richard... At sonhara com uma vida a seu lado.
Conhecera-o pouco depois de comear a trabalhar como consultora de informtica.
Richard era um jovem e brilhante executivo, de trinta anos, que trabalhava numa agncia de publicidade.
Catherine, chamada para prestar assistncia tcnica ao sistema de computao da empresa, logo simpatizara com ele. Isso acontecera dois anos e meio atrs. Pouco depois, ambos haviam comeado a namorar.
Impressionada pela autoconfiana e segurana de Richard, que sempre parecia saber exatamente a atitude correta a tomar, no momento correto e da forma correta... Catherine cara apaixonada. Ao menos assim pensava, naqueles dias de empolgao, quando Richard parecia-lhe o homem perfeito.
Criada praticamente sem o pai, que abandonara a famlia quando ela era ainda muito pequena, Catherine no tivera a referncia de um ser masculino, durante a infncia.
Marjorie, sua me, desposara Gregory algum tempo depois. Mas, apesar de to criana, Catherine sempre o vira como um amigo e no um pai, ou um padrasto. Adorava-o, mas nunca lhe pedira um conselho, nunca o procurara nos momentos difceis.
Alm do mais, tal como Marjorie, Gregory era um sonhador incorrigvel... E um realizador no muito competente.
Ao longo da infncia e adolescncia, Catherine observara-os, muitas vezes, traando planos mirabolantes que jamais se realizariam, por falta de estrutura e objetividade. Helenna se parecia com ambos, nesse ponto.
Marjorie costumava dizer que Catherine era a sensatez em pessoa. E que herdara essa qualidade de seu pai.
Catherine comprovaria esse fato, anos mais tarde, quando por fim reencontrara-se com ele. De fato, seu pai, Albert Glenn, tinha um incrvel senso de praticidade e organizao. Mas, infelizmente, essa era a nica afinidade entre ambos, ela descobrira, chocada. Albert Glenn nunca demonstrava afeio, nem mesmo simpatia pela filha. Recebia-a em sua sala particular, numa empresa de informtica, tal como faria com um cliente, ou um colega de trabalho.
 O contato freqente com as mquinas deixou-o refratrio aos sentimentos  Catherine sentenciara, certa tarde, ao voltar de mais um encontro frustrante com o pai. E ante a expresso surpresa da me, abraara-a calorosamente.  Oh, mame, prefiro mil vezes seu modo excntrico e desordenado de viver... Ao menos, voc tem um corao.
Emocionada, Marjorie desatara a chorar. Catherine tambm no conseguira se conter. E sorrindo, por entre as lgrimas, dissera:
 Est vendo s? Voc possui um corao...
 Seu pai tambm, querida. S que ele no sabe se expressar.
 Voc tem toda a razo, mame... Ele  totalmente analfabeto, em questo de sentimentos.
Pouco tempo depois, a empresa para a qual Albert Glenn trabalhava fora transferida para o Canad. Dias antes da partida, ele enviara um telegrama a Catherine, informando-a sobre o fato:
Parto prxima semana. Residncia definitiva em Quebec, motivo trabalho. Sei que a decepcionei. Mas desejo-lhe sorte e sucesso. Ass.: Albert.
Se ele ao menos houvesse escrito: seu pai, Albert... Catherine no teria se sentido to abandonada.
Mas no havia como fugir  verdade: sua relao com o pai revelara-se um total desastre, deixando-lhe profundas marcas.
Talvez por isso ela houvesse se impressionado tanto com Richard, que dava-lhe ateno constante, que tinha um modo quase paternal de trat-la, que sempre parecia saber o que fazer...
O pequeno Theo deu um gritinho de alegria, arrancando Catherine das recordaes. Sorrindo, ela acariciou-lhe os cabelos que eram negros, como os de Samuel... E fitou-lhe os olhos azuis, como os de Samuel...
 Espero que voc tenha uma sorte melhor com seu pai, querido, do que a que eu tive com o meu  Catherine murmurou, docemente.
Como se compreendesse, no o significado, mas o carinho que envolvia aquelas palavras, o beb deu um novo gritinho de alegria.
 Richard devia estar louco ao imaginar que eu seria capaz de entregar voc a outras pessoas... Nem que fosse o melhor internato do mundo!  Catherine declarou, apertando o beb contra o peito.  Bem, meu anjinho, agora temos de ir.
Durante o trajeto at a casa de Samuel Winston, um pensamento incmodo assaltou Catherine: era ruim admitir, mas Richard tinha razo, ao menos num ponto... Ela havia superado o rompimento de ambos com incrvel rapidez, talvez porque jamais amara Richard de verdade? Ou porque seus sentimentos por ele eram apenas superficiais? Ou o fato de haver conhecido Samuel Winston, na vspera, teria algo a ver com tudo isso?
 Que absurdo!  a voz de Catherine soou numa exclamao abafada, enquanto ela apertava o volante com fora.
O melhor que tinha a fazer era no mais pensar em Richard Templeton. Afinal, aquele homem no a merecia. No mesmo.
A campainha do telefone celular de Catherine soou, no interior do pequeno Escort que ela dirigia.
Em sua cadeirinha, no banco traseiro do veculo, Theo bateu palmas, como alis sempre fazia quando ouvia a campainha do celular.
Pegando o aparelho que estava sobre o banco, a seu lado, Catherine atendeu:
  Al? Um momento, por favor.  Entrando numa alameda,  esquerda, ela fugiu do trnsito da avenida pela qual trafegava. Estacionou  sombra de uma rvore frondosa e s ento voltou a falar.  Pois no?
  Catherine?
Reconhecendo a voz de Miranda Gladson, ela sorriu. Ambas haviam conversado, na vspera.
 Bom dia, amiga. Estou a caminho da casa de Samuel Winston.
 Foi o que imaginei. Felizmente, voc ainda no chegou l...
  No entendi  Catherine reagiu, confusa.  No me diga que ele cancelou o contrato?
 Ao contrrio. Samuel acabou de me telefonar, sabe? Est simplesmente fascinado com voc...
  A recproca no  verdadeira  Catherine sentenciou.
Miranda levou alguns segundos para comentar:
 Deu para perceber. E sei que voc tem motivos de sobra para se sentir assim. Mas, por favor, no misture o campo pessoal com o profissional.
 Eu jamais faria qualquer coisa para prejudicar sua imagem perante Samuel.
 No se trata apenas de minha reputao, querida, mas de sua sobrevivncia emocional  Miranda afirmou, num tom carregado de compreenso.  J faz algum tempo que voc vem vivendo sob forte tenso. Portanto, no abuse dos limites.
 Vou me lembrar desse conselho, quando tiver vontade de pular no pescoo de Samuel Winston.
  Pular no pescoo...  Miranda repetiu, num tom maroto  para beij-lo?
  Para estrangul-lo,  claro  Catherine respondeu, enrubescendo e pensando que, felizmente, a amiga no podia v-la, naquele momento.  Mas, diga-me, por que est me telefonando? J no combinamos tudo, ontem?
 Acontece que, durante e conversa com Samuel, acabei falando demais.
  Como assim?  Catherine indagou, aflita.  Voc contou a ele que eu... Quero dizer, que Theo...
 Sossegue, meu bem. Sei que s vezes peco por indiscrio, mas no sou uma traidora. Sei guardar segredos e sou fiel s minhas amizades. Ainda acho uma grande loucura voc se empregar na casa de um homem a quem odeia, mas...
Num tom paciente, Catherine a interrompeu:
 Minha querida, no duvido de que voc  uma grande amiga, mas gostaria de saber por que acha que falou demais a meu respeito, para Samuel?
  Porque contei a ele que voc  consultora de informtica.
 Contou?  Catherine ergueu as sobrancelhas, em sinal de apreenso.  E aposto que ele estranhou o fato de uma consultora de informtica procurar trabalho como governanta... Foi isso?
  Nem tanto. Expliquei-lhe que voc  free-lance e que muitas vezes presta assessoria por telefone, aos clientes. Disse, tambm, que como se tratava de um trabalho temporrio, e bem pago, voc se interessou... Assim, poder incrementar seu oramento.
 At a, voc s disse a verdade.
 Acontece que Samuel no me ligou apenas para falar de voc.  Miranda fez uma pausa, antes de prosseguir.  Ele estava desesperado, sabe?
 Por qu?  Catherine indagou, num tom irnico.  Ser que seu precioso p de caf brasileiro acabou, justamente na hora do desjejum?
  Como?  Miranda surpreendeu-se.  Sobre o que est falando, querida?
 Ora, esquea. Eu estava apenas me indignando com Samuel Winston... Que se d a tantos luxos, enquanto seu filho leva uma vida modesta e...  interrompendo-se, Catherine desculpou-se.  Oh, perdoe-me. No quero mais importun-la com meus ressentimentos. Voc estava falando sobre o desespero do pobre sr. Winston...
  L vai voc de novo!  Miranda exclamou, rindo.  Sabe de uma coisa? Estou comeando a ficar com d de Samuel. Se ele cair em suas mos...
  No quero que ele caia em minhas mos ou nas de qualquer outra pessoa. Desejo apenas que ele aja como um homem, entende? Que demonstre honra e carter...
 Valores to raros, hoje em dia  Miranda comentou.  Bem, querida, deixe-me ser mais objetiva: Samuel estava terrivelmente nervoso, porque seu micro-computador anda dando problemas. Ele tem medo de acabar perdendo certos arquivos importantes, qualquer dia desses.
  Bem, ele que consulte uma pessoa especializada no assunto.
 Foi exatamente isso que sugeri. E quando Samuel me perguntou se eu conhecia algum... Adivinhe de quem me lembrei?
Catherine agora comeava a entender o que estava acontecendo:
  Miranda... Voc me indicou para Samuel Winston?
  Sim.
  Mas por qu?
  Ora, se voc estava disposta a trabalhar para ele como governanta, qual  o problema de...
  Acontece que eu pretendia me manter incgnita. No queria que ele soubesse qual  minha verdadeira profisso, ou...
  Agora  tarde, querida. Ele j est ciente de que voc  uma das melhores consultoras de informtica desta cidade. E pretende contrat-la por um preo irresistvel.  Com muita nfase, Miranda mencionou a quantia que Samuel lhe pagaria, pelo trabalho.
Boquiaberta, Catherine exclamou:
 Mas trata-se de uma pequena fortuna, amiga! Por que pediu esse preo to alto?
  No pedi  Miranda explicou, triunfante.  Foi ele mesmo quem props.
  Talvez eu no devesse aceitar  Catherine pensou, em voz alta.
  Por que no? Se quer mesmo conhecer esse homem de perto, no encontrar melhor oportunidade. Voc ter um profundo contato com o trabalho dele, com seu estilo de criar, enfim... Voc no queria se aproximar do pai de Theo? Pois a est, meu bem. Lembra-se daquele sbio provrbio que diz: Tenha cuidado com seus sonhos, pois eles podem se concretizar?
  Lembro-me. E espero estar  altura da realizao do meu sonho. Afinal, s quero um pai para Theo. Ser que  pedir muito?
Naquele momento, um pssaro cantou, na copa da rvore junto  qual Catherine havia estacionado. Seria um bom pressgio? Ela esperava, sinceramente, que sim.



CAPTULO IV


Ao transpor os portes da propriedade de Samuel Winston, Catherine experimentou um inexplicvel sentimento de bem-estar.
"Que absurdo", pensou, confusa.
A palavra bem-estar era a ltima que ela escolheria, para definir o que a proximidade com o mundo de Samuel Winston lhe causava.
Era verdade que o local, muito bem cuidado e florido, com a bela casa colonial erguendo-se, soberana, no centro, causava impresso. Mais que isso: agradava aos olhos.
Samuel soubera respeitar a me-natureza, Catherine constatou, admirando o bosque centenrio que circundava a propriedade, parecendo acolh-la num abrao... Nos canteiros, flores multicoloridas ofereciam o nctar aos beija-flores.
Nas copas das rvores, pssaros cantavam como se saudassem a bela manh de vero.
Era impossvel negar que a harmonia remava naquele local. Catherine, que sempre fora uma ardorosa amante da natureza, no podia deixar de se sentir praticamente em casa... Embora os motivos que a haviam trazido at ali fossem bastante graves.
Por um momento, Catherine permitiu-se imaginar como se sentiria, se no houvesse um passado entre ela e Samuel, ou melhor: entre Helenna, Theo e Samuel.
Se estivesse ali apenas para trabalhar, temporariamente, como governanta de Samuel Winston, teria todo o direito de experimentar aquela doce sensao de paz e bem-estar.
Rindo de si mesma, Catherine meneou a cabea. Se no fosse por Theo e Helenna, ela jamais teria conhecido Samuel Winston. Era tolice fazer suposies daquele tipo.
O cachorro Dougal veio correndo, dos fundos da propriedade, para saudar Catherine. Seus latidos fortes j no a assustavam.
 Como vai, rapaz?  Ela sorriu para o animal, que corria ao lado do Escort.  Agora, que j nos conhecemos, no tenho mais medo de voc.
Catherine estacionou o veculo em frente  varanda, onde Samuel j a esperava. Ao v-la, aproximou-se com aquele sorriso que espalhava luminosidade ao redor.
Estava usando cala bege, mocassins e camisa branca, cujos botes entreabertos deixavam  mostra uma parte do trax musculoso.
  Bom diaele saudou Catherine, num tom jovial.
 Bom dia  ela respondeu, polidamente, enquanto saltava do veculo. Tinha prometido a si mesma que manteria uma postura severa e distante, perante aquele homem.
Mas como cumprir essa determinao, se Dougal quase a derrubou, ao receb-la? Erguendo as patas dianteiras, colocou-as  altura dos ombros de Catherine, fazendo-a perder o equilbrio. E por pouco no lambeu-lhe o rosto, naquela demonstrao de carinho, to prpria dos ces.
 Ei, v com calma!  Catherine exclamou, divertida.  Adoro ser bem recebida, mas tambm no  preciso exagerar.
 Dougal, se voc quer fazer amizade, seja menos afoito  Samuel recomendou, no mesmo tom.
O enorme co, porm, parecia pouco ligar para os conselhos dos humanos. Correndo em torno de Catherine, fazia-lhe festas e latia alegremente.
  As vezes penso que Dougal no tem idia do quanto  grande  Samuel comentou.  Acho que ainda se julga um filhote.
  bem possvel  Catherine concordou, olhando afetuosamente para o animal.  De qualquer forma, ele  um amor.
 Pode ser, mas h certos momentos em que me faz perder a pacincia. Ainda outro dia, eu estava de sada para dar uma palestra, usando meu melhor terno. E adivinhe o que Dougal fez?
 Exatamente a mesma coisa que acaba de fazer comigo?
 Sim. Com o agravante de que estava chovendo e, portanto, voc pode imaginar o estado das patas de Dougal...
Ambos riram. E Catherine concluiu, resignada, que sua promessa de manter-se muito sria e distante, ao menos por enquanto, estava suspensa.
Abrindo a porta traseira do Escort, tirou Theo de sua cadeirinha e aconchegou-o no colo.
 Querido...  comeou a dizer. Mas no conseguiu concluir a frase.
O beb deu um gritinho de entusiasmo ao ver Dougal, que aproximou-se entre curioso e alegre. Por um momento, os dois ficaram se olhando, fascinados. E ento Dougal latiu.
Receando que Theo se assustasse, Catherine apertou-o ainda mais contra o peito. O beb, porm, continuava encantado com o animal. Esticando a mozinha, tentava toc-lo.
Catherine ento abaixou-se.
 Calma, Dougal  Samuel recomendou, baixinho. Parecendo  entender a fragilidade  do  pequeno Theo, o enorme co aproximou-se ainda mais, com movimentos bem lentos.
Samuel lanou um olhar apreensivo a Catherine, enquanto Theo esticava o bracinho, para tocar a cabea de Dougal.
 Tem certeza de que...  a voz de Samuel soava tensa  est tudo bem?
 No sei  Catherine respondeu, com os olhos fixos na cena impressionante que se desenrolava  sua frente.  Mas, pelo visto, os dois vo se entender s mil maravilhas.
 Assim espero... O beb riu quando Dougal farejou-lhe a mozinha e, depois, a lambeu. Dougal abanava levemente a cauda, demonstrando sua alegria.
  Parece que se tornaram amigos  Catherine concluiu, aps alguns instantes.
  Ufa!  Samuel exclamou, num tom abafado.  Confesso que, por um momento, fiquei apavorado.
 Eu tambm  Catherine confidenciou.  Mas no me senti no direito de interferir. Afinal, os dois pareciam to empenhados em fazer amizade...
 Tem razo. De minha parte, sempre soube que Dougal  um grande co. Mas mesmo assim me preocupei. Alm do mais, certa vez assisti a uma cena chocante entre meu sobrinho e um co.
  Esse co era Dougal?
 No, ele pertencia a um amigo da famlia. Meu sobrinho tinha dois anos e estava brincando com o co. De repente, ouvimos um grito. O animal o tinha mordido.
  Mas por qu?
  Porque meu sobrinho resolveu provar a rao dele.
  Ento, o cachorro teve um motivo para reagir. Apenas obedeceu ao instinto de proteger seu alimento.
 Certamente, mas isso no diminuiu o susto do garotinho, nem o nosso.
   verdade. E seu sobrinho ficou muito machucado?
 No. Mas o trauma foi grande. At pouco tempo atrs, ele nem podia ver Dougal, que ficava apavorado. Depois, acabou perdendo o medo.
  timo.
Ambos se olharam por alguns instantes, com genuna simpatia.
De sbito, Catherine recriminou-se. Sua chegada  propriedade de Samuel Winston estava acontecendo de modo totalmente contrrio ao que ela havia planejado.
O problema era que Dougal... E que Theo... E tambm aquela manh radiante de vero...
Catherine suspirou profundamente, enquanto conclua que no, que o problema era ela e mais ningum. Ela estava morrendo de simpatia por Samuel Winston.
"Droga", pensou, irritada consigo mesma. "Comecei mal. Mas ainda est em tempo de corrigir certas coisas." Tomando uma sbita deciso, disse com firmeza: - Segure Theo, enquanto levo as coisas para dentro, sim?
  No seria melhor se fizssemos o contrrio? Eu carregarei sua bagagem, enquanto voc...
Antes que Samuel terminasse a frase, Catherine colocou o beb em seus braos:
 Bem, deixe-me apresent-los. Theo, este  Samuel Winston... Samuel, este  Theo Glenn MacAl-lister, o maior tesouro que possuo, neste mundo.
  Espere um momento...
Ignorando as palavras e a expresso atnita de Samuel, ela abriu o porta-malas do Escort e retirou duas valises.
 Com licena  disse, de passagem, dirigindo-se ao interior da casa.
  Eu no sei como segurar um beb  Samuel protestou, aflito.
Catherine voltou sobre os prprios passos, para recomendar:
 No se preocupe. Tente aconcheg-lo nos braos e abra seu corao para ele. Este  o segredo.
Desajeitadamente, Samuel tentou acomodar melhor o beb, aconchegando-o contra o peito.
 Viu?  disse Catherine, lutando para no demonstrar a emoo que aquela cena lhe causava.  No  to difcil assim.
 Muito mais do que voc pensa.  Foi a resposta tensa de Samuel.
Mas Catherine j havia se afastado.
A ss com o beb, Samuel sentiu-se invadido por um misto de ternura e angstia... Ternura, porque era impossvel no se comover com aquele ser to puro e encantador. E angstia porque o beb o fazia lembrar-se de sua terrvel limitao.
Na noite anterior, ao refletir sobre a perspectiva de ter Catherine Glenn trabalhando em sua casa, Samuel havia considerado seriamente o fato de ela possuir um beb... E acabara concluindo que poderia lidar com essa realidade, sem grandes problemas. Afinal, era um homem maduro e sensato. O fato de no poder desfrutar a felicidade de ser pai deixara-o arrasado, por um longo tempo. Mas Samuel acabara aceitando a realidade, j que no havia outra opo. A princpio, logo depois que a ex-esposa o informara de que ele era estril, Samuel sentia-se mal quando via casais com bebs, nas praas, shoppings ou qualquer outro local.
Depois, reagira do mesmo modo com relao s crianas em geral. Bastava v-las brincando ou correndo, nos sagues das livrarias onde promovia o lanamento de seus livros, para que Samuel pensasse: "Escrevo para crianas. Entretanto, jamais conseguirei compreend-las a fundo, j que nunca serei pai..." Essa fase fora a mais difcil de superar, mas Samuel enfim conseguira.
Julgava-se curado daquele trauma e por isso havia encarado, com naturalidade, a presena de um beb em sua casa.
Agora, porm, compreendia que no estava to bem preparado quanto imaginara.
A aflio de Samuel tornou-se ainda maior, quando o beb comeou a choramingar.
 Calma.  Ele sorriu para aquele rostinho angelical, que causava-lhe tanta emoo.  Sua mame voltar num instante.
De fato, Catherine retornou logo depois. Lanando um olhar rpido a Samuel, acariciou os cabelos do beb e caminhou em direo ao carro.
Dougal, incrivelmente calmo, observava a movimentao, sentado sobre as patas traseiras.
Catherine pegou uma bolsa a tiracolo, pendurou-a no ombro e depois retirou uma caixa grande, de papelo, do banco traseiro.
  Tem certeza de que no quer que eu cuide disso?  Samuel perguntou, mal disfarando a agitao que o dominava.
 Fique tranqilo  ela respondeu, sem sequer olh-lo.  Posso muito bem dar conta dessa tarefa.
  No duvido, mas...
Antes que Samuel terminasse a frase, Catherine j havia entrado novamente na casa.
 Acho que teremos de nos virar sozinhos  ele disse a Theo, num tom carregado de carinho.  Espero que meu colo no seja muito incmodo.
O beb ento sorriu. E Samuel foi invadido por uma onda de alegria. J experimentara um sentimento semelhante, com os sobrinhos. Mas nunca de maneira to intensa.
 Estamos comeando a nos entender, afinal  ele concluiu, sorrindo de volta para Theo, que quela altura j estava interessado em outra novidade... Tinha acabado de descobrir os botes da camisa de Samuel e brincava com eles.
O primeiro boto, particularmente, parecia chamar-lhe mais a ateno. Inclinando-se, o beb tentou abocanh-lo.
  Acho que isso no  l muito saboroso, meu bem  disse Samuel, divertido.  Se tiver um pouquinho de pacincia, sua me daqui a pouco preparar um mingau bem gostoso... O que me diz?
 Gu...  o beb balbuciou. Num impulso, Samuel beijou-lhe os cabelos encaracolados e negros:
  Isso significa que est concordando ou discordando de mim?
  Hum...  Theo dessa vez tentava arrancar o boto.
 Que tal este brinquedo?  Samuel tirou um chaveiro do bolso e entregou-o ao beb.  No  bem mais interessante?
Imediatamente, Theo desistiu do boto e pegou o chaveiro, com ambas as mozinhas. O barulho das chaves, bem como um ursinho amarelo, de feltro, cativou-lhe a ateno.
 Este  o Ursinho Jimmy, heri de meus ltimos livros  disse Samuel, acariciando o rostinho do beb.  Ele tem um amiguinho inseparvel, sabe? Samuel ia dizer algo mais. Porm, sua voz falhou. E quando ele finalmente pde falar, foi apenas para fazer uma confisso:
 Desculpe, querido. Voc com certeza no entende por que estou me comportando desta forma pattica, no  mesmo? O fato  que voc me lembra algum... E fitando aquele pequenino ser no fundo dos olhos azuis, concluiu:  Voc me lembra exatamente o filho que eu gostaria de ter.
Theo parou de brincar com o chaveiro e sustentou-lhe o olhar.
"Devo estar delirando", Samuel pensou. "Tenho a ntida impresso de que este beb me compreende. Mas isso, naturalmente,  um grande absurdo. A imaginao est me pregando peas."
Entretanto, a despeito da voz da razo, que Samuel esforava-se por considerar, Theo continuava a olh-lo, com aquela profundidade e pureza to prpria dos bebs.
  incrvel...  Deixando a sensatez de lado, Samuel resolveu considerar apenas o que lhe dizia o corao.  Eu gostaria de ter um filho exatamente igual a voc... Com esses mesmos olhos, que alis so da cor dos meus... E com esses cabelos encara-colados, negros como os meus. No  uma grande coincidncia que sejamos parecidos fisicamente?
  Da!  o beb exclamou, jogando o corpinho para trs, em sinal de alegria.
Samuel amparou-o a tempo.
 Claro que no existe a menor possibilidade de termos algum lao familiar. Mas o fato  que, desde o primeiro momento em que olhei para voc... Senti algo diferente, sabe?
Presa de uma emoo que se tornava mais intensa a cada segundo, Samuel apertou o beb contra o peito.
  Sim, querido... Eu adoraria ter um filho como voc. E tambm uma garotinha, sabe? Linda como sua me... Uma garotinha ruiva, de olhos verdes...
O beb remexeu-se, incomodado. Fixando novamente seu rostinho, Samuel sorriu.
 Acho que eu o estava apertando demais... Foi isso? Ou ser que reagiu mal porque falei em garotinhas? Voc no gosta de meninas?
Theo voltou a concentrar-se no chaveiro.
 Bem, voc passar alguns anos achando-as antipticas e totalmente desinteressantes. Mas chegar o dia em que mudar de idia... O dia em que encontrar uma garota que cativar seu corao. E ento voc ter certeza de que nunca mais poder viver sem ela. Isso j aconteceu comigo, sabe? Quando conheci Christine, julguei que tivesse encontrado minha alma-gmea.  Samuel suspirou, profundamente, antes de prosseguir.  Mas estava enganado, sabe? Levei anos para descobrir esse fato que, afinal,  to simples.  Aps uma pausa, acrescentou:  Tomara que o mesmo no se d com voc. Espero que no sofra a mesma desiluso que eu...  Com um sorriso amargo, concluiu:  Como se isso fosse possvel! O mundo no poupa ningum. Samuel havia conhecido Christine cerca de trs anos atrs, numa festa de Natal promovida por sua editora. Ela era jornalista e queria entrevist-lo. Samuel, como era seu costume, tratara-a com amabilidade e deferncia.
A certa altura da festa, ambos haviam se retirado para o jardim de inverno, situado nos fundos do casaro onde funcionava a editora.
Christine comeara a entrevista com as perguntas de praxe: quando Samuel descobrira sua vocao como escritor? O que significava, para ele, ser um dos mais consagrados escritores infantis da Austrlia? O que sentira, ao saber que seus livros eram traduzidos para as trs Amricas, para o Oriente e frica?
Samuel j perdera a conta de quantas vezes j discorrera sobre esses fatos. Mas nem por isso demonstrava descaso ou m vontade, nas respostas.
A entrevista, que prometia ser apenas mais uma, entre tantas, acabara se transformando num bate-papo interessante sobre sua carreira e idias sobre o mundo. Ao contrrio de vrios outros jornalistas, Christine no se mantinha passiva, diante das respostas de Samuel. Opinava, discordava, aprovava... Enfim, participava de forma bastante ativa, contribuindo para que a conversa se tornasse mais dinmica.
Aos poucos, ambos iam descobrindo uma srie de afinidades. Tinham gostos parecidos com relao a literatura e artes em geral. Gostavam dos mesmos gneros de msica, dos mesmos filmes... E quase sem perceber iam se deixando fascinar, um pelo outro.
No final da entrevista, trocaram telefones, e-mails e prometeram se ver em breve.
Na noite seguinte Samuel ligara para Christine, convidando-a para jantar.
No Reveillon, ambos se conheceram na intimidade. Meses depois, casavam-se numa antiga matriz, situada num bairro nobre de Melbourne.
O evento fora anunciado com destaque, na coluna social dos principais jornais da cidade. Afinal, Samuel era um escritor de renome. E, Christine, uma jornalista brilhante.
Passaram-se alguns meses, antes que a imprensa os deixasse viver em paz. Quando isso por fim acontecera, Samuel experimentara uma incrvel sensao de alvio. Estava farto de ter sua vida particular devassada. Se ia a um restaurante com Christine, encontrava fotgrafos e reprteres, que no se importavam em interromper-lhes o jantar, para entrevist-los. Se decidia assistir a um bom filme, era flagrado na sada do cinema, por uma cmara fotogrfica ou de vdeo.
Muitas vezes, Samuel reclamava desses incmodos. Christine, no entanto, no se perturbava.
  Voc ainda no se acostumou  realidade de ser uma pessoa pblica?  ela o questionava.
  At gosto de publicidade, quando estou lanando um livro, ou fazendo uma turn. Mas ser invadido em minha vida particular...  insuportvel.
  Ora, no d tanta importncia ao fato. Tente encar-lo com naturalidade.
  No posso me sentir natural se estou almoando e algum resolve me fotografar, justamente na hora em que levo uma folha de alface  boca.
 No seja to ranzinza, querido. Isso faz parte de nossa profisso.
 Se isso ocorre conosco, imagine o que acontece com um astro de tev, ou uma estrela de filmes.
  Ah, pode apostar que eles so muito mais...
  Importunados  Samuel completava.
  Eu ia dizer requisitados... Mas voc me interrompeu.
Com o passar do tempo, Samuel fora descobrindo que Christine no apenas suportava, como gostava da publicidade sobre a vida de ambos. Parecia sentir-se satisfeita por sair, constantemente, nas colunas sociais.
Quando por fim os fotgrafos e jornalistas pararam de abord-los com tanta freqncia, a relao de ambos comeara a se desgastar.
Coincidncia ou no, o fato era que Christine tornava-se irritadia e intratvel. Parecia inquieta e insatisfeita, como se lutasse contra um imenso vazio, que a cada dia apossava-se mais e mais de seu ser.
Samuel comeara a se preocupar. Christine j no era, nem de longe, a mulher vibrante do incio do casamento. E ele talvez estivesse se tornando desinteressante, a seus olhos. Assim Samuel pensava, naqueles dias difceis.
Julgando que uma boa conversa, franca e aberta, resolveria o problema, ele convidara Christine para almoar num restaurante  beira-mar, especializado em frutos do mar, que ela adorava.
Christine, porm, mantivera-se fechada e distante. Mal tocara nos pratos. E quando Samuel pedira-lhe que se abrisse, que lhe contasse o que a afligia, ela simplesmente se calara e voltara o rosto para um lado.
  No podemos continuar desse jeito  ele desabafara, por fim.  Nosso casamento est indo por gua abaixo. Precisamos salv-lo, de algum jeito.
  Que tal termos um beb?
A sugesto pegara-o de surpresa.
 Um beb?  Samuel repetira, confuso.  Mas combinamos que viveramos alguns anos sem filhos, para podermos desfrutar integralmente a companhia um do outro. Lembra-se disso, querida? Pensvamos em viajar pelo mundo e...
 Eu sei  ela o interrompera.  S que as coisas acabaram entrando em outro ritmo, no  mesmo?
 Sim. Mas, francamente, no creio que uma criana possa salvar uma relao que vem se tornando problemtica h j algum tempo. Talvez devssemos, antes de mais nada, resolver nossas questes pessoais. Depois,  claro, poderemos ter um beb.
  No vamos deixar para depois.  Christine sentenciara, com um olhar significativo.
Naquela mesma tarde, ambos fizeram amor, longamente, como no incio do casamento. Feliz e exausto, Samuel julgara que o signo da felicidade voltara a ilumin-los... Nada estava perdido, afinal.
Em breve, porm, ele descobriria o quanto se enganara. Christine logo voltara s suas maneiras irritadias. E ele acabara perdendo a pacincia.
 O que acontece, afinal? Voc est simplesmente insuportvel, Christine!
 Talvez eu possa dizer o mesmo a seu respeito  ela retrucara, por entre os dentes. De sbito, comeara a chorar.
  O que houve?  Samuel indagara, compadecido.  Fale comigo, querida. O que a est fazendo
to infeliz?
  No consigo engravidar  Christine respondera, por entre as lgrimas.  Estamos tentando h trs meses e simplesmente no consigo!
  Talvez devssemos consultar um mdico. O que acha?
Apesar de fazer essa proposta, Samuel no imaginava que ele, ou Christine, pudessem ter algum problema. Afinal, eram fortes, vigorosos e saudveis. Ele j era um homem maduro, de trinta e dois anos. Mas Christine tinha apenas vinte e cinco. Portanto, os dois estavam numa idade apropriada para gerar.
Christine encarregara-se de encontrar um mdico para ambos. Depois de muito pesquisar, optara pelo dr. Helmut Lewis, que uma colega do jornal lhe indicara.
Samuel no fizera objees. Acompanhara Christine  primeira consulta e providenciara, rapidamente, os exames que o mdico lhe pedira. Quanto a Christine, teria de fazer exames muito mais especficos. E isso levaria cerca de duas semanas.
Na tarde em que deveria buscar o resultado, ela manifestara o desejo de ir sozinha ao consultrio.
  Tem certeza disso?  Samuel indagara, preocupado.
  Sim  Christine respondera, com uma expresso enigmtica.
  No seria melhor se fssemos juntos?
Mas Christine mantivera-se irredutvel. Acostumado ao carter temperamental da esposa, e temendo uma discusso acirrada entre ambos, Samuel acabara no insistindo.
Ela demorara muito a voltar do consultrio. S chegara ao anoitecer, dizendo estar com uma terrvel enxaqueca e ansiosa para descansar.
 Que voc se sinta exausta e indisposta, eu at compreendo  Samuel afirmara.  Mas ao menos conte-me resultado dos exames.
  Nada bons, querido  Christine respondera, evitando-lhe os olhos.
 Como assim... nada bons? O que isso significa?
 Que voc no pode ter filhos  a voz de Christine soava quase impessoal.  Sinto muito, mas voc  estril.
Samuel deixara-se cair numa cadeira. Christine retirara-se para o quarto. Uma semana depois, ela pediria o divrcio. E confessaria, entre lgrimas, que estava tendo um caso com o dr. Helmut Lewis.
O sonho de uma vida a dois, to idealizado por Samuel Winston, desabara como um castelo de cinzas. A felicidade no existia, afinal.
Assim Samuel se sentira, nos meses seguintes  separao. Mas o tempo, pai e companheiro, ajudara-o a superar as mgoas. A vida, que sempre falava mais forte, seguira seu curso.
O som do chaveiro caindo no cho da varanda interrompeu as divagaes de Samuel.
Abaixando-se com todo o cuidado, e mantendo o beb contra o peito, ele pegou o chaveiro.
Theo gritou de alegria, quando Samuel balanou o Ursinho Jimmy, diante de seus olhos.
  natural que eu o faa divertir-se um pouco, depois de lhe contar tantas coisas tristes  disse Samuel, com um sorriso cheio de amor.  Devo estar louco, no  mesmo? Imagine s se algum me visse neste momento, fazendo confidencias a um beb! Eu certamente acabaria sendo internado.
 Internado por qu?  Catherine indagou, ao passar por ambos, carregando a ltima valise da bagagem.
 Ora!  Samuel surpreendeu-se.  Voc passou por mim e eu nem vi...
  J fiz isso trs vezes, sr. Winston  ela afirmou, irnica.
  O qu?  Ele franziu o cenho.
 Esta  a quarta viagem que fao, do carro at a sala. Voc estava to entretido falando com Theo, que nem reparou em ns.
  Ns?  Samuel repetiu, sem entender.
  Eu falava de mim e de Dougal... Veja.
Com uma expresso de espanto, Samuel viu o enorme co deitado num tapete, a poucos passos de distncia.
 Ele entrou aqui e eu nem percebi!  exclamou, atnito.
 Exatamente. Nem voc, nem Theo, que parecia muito compenetrado em ouvir suas confidencias.  E ante o ar constrangido de Samuel, Catherine esclareceu:  No se aflija, pois no escutei nada.
Voc falava muito baixinho, de modo que s Theo podia compreender...
  Naturalmente, ele no entendeu sequer uma palavra do que eu disse.
  Mas percebeu o carinho que as envolvia. Isto sim,  o mais importante.  Fitando-o com curiosidade, Catherine perguntou:  Afinal, do que vocs estavam falando?
 Tratava-se de uma conversa de homens  Samuel respondeu, numa tentativa de fazer humor. Mas sua voz soava carregada da mais pura emoo. Uma emoo que no passou despercebida a Catherine... E tampouco ao pequeno Theo, que parecia muito  vontade em seu colo.



CAPTULO V


Catherine passou boa parte da manh arrumando a sute que Samuel havia reservado para ela e Theo.
O aposento era claro, espaoso e muito confortvel. Ficava no segundo pavimento da casa, prximo  sute de Samuel.
Era composto de uma ante-sala, um quarto maior e um menor, alm de um banheiro.
A primeira providncia que Catherine tomou foi montar o bercinho e o carrinho de Theo.
Depois, arrumou suas roupas e as do beb num grande armrio embutido, que ia do cho at o teto.
Os mveis, tais como os da sala, eram de madeira clara. Apenas a cor dos estofados, em vez de verde-musgo, era bege. Esse tom combinava com as cortinas, de tecido estampado em marrom e areia.
Tudo, naquele lugar, denotava bom gosto e simplicidade. E embora no estivesse nada disposta a admirar Samuel, Catherine tinha de reconhecer que ele possua mais essa qualidade.
Encantador, carismtico, gentil, talentoso, refinado... Decididamente, aquele homem tinha algo especial, ela pensava, a contragosto, enquanto terminava de arrumar seus objetos pessoais no armrio do banheiro.
No bercinho, Theo entretinha-se com seu brinquedo preferido: uma baleiazinha de borracha, amarela, que fazia um som engraado quando pressionada.
 Catherine!  Samuel a chamou, a certa altura.
 J vou  ela respondeu, elevando a voz. Rapidamente, dirigiu-se  ante-sala da sute.
Samuel a aguardava, junto  porta entreaberta.
  Entre  ela convidou.
 No quero perturb-la. Passei apenas para avisar que estarei na biblioteca,  sua espera, para conversarmos. Mas no tenha pressa. Acomode-se primeiro, est bem?
 Faltam poucas coisas para arrumar  disse Catherine, lanando um olhar s vrias caixas de papelo, j vazias, que estavam a um canto.  Como voc v, j desembalei quase tudo.
Samuel sorriu, exibindo dentes perfeitos como prolas preciosas.
 Voc veio com uma bagagem e tanto! Imagine o que traria, se fosse ficar um ms.
Catherine reagiu, rspida:
  No trouxe nada de suprfluo, se  isso que est insinuando. Um beb precisa de muitas coisas. E Theo  um beb, lembra-se?
 Perdoe-me  Theo desculpou-se, de sbito muito srio.  No tive inteno de ofend-la.
S ento Catherine percebeu que estava sendo excessivamente spera. Passando a mo pelos cabelos ruivos, num gesto de cansao, retratou-se:
 Talvez seja eu quem deva pedir desculpas, pelo modo rude com que respondi a um simples comentrio. E que os homens em geral acham que as mulheres carregam coisas desnecessrias. E eu detesto esse tipo de preconceito.
  Bem, eu no sou preconceituoso.  Samuel voltou a sorrir.  E agora vamos esquecer esse pequeno desentendimento. Estarei na biblioteca,  sua espera.  J ia saindo, mas voltou-se para inform-la:  Fica no final do corredor,  esquerda.
  Certo. Estarei l em poucos minutos.
 J disse para no se apressar.  Com um aceno, Samuel afastou-se.
Catherine acabou demorando quase meia hora, para terminar a arrumao. No bercinho, Theo continuava entretido com seu brinquedo. Catherine tomou-o no colo e ajeitou-o, delicadamente, no carrinho.
  Vamos dar um pequenino passeio, meu anjo  disse, carinhosamente, acariciando os cabelos negros e encaracolados do beb.
Pouco depois, ela parava  porta da biblioteca. Bateu levemente e aguardou.
Samuel atendeu em poucos instantes.
Ao v-lo, Theo deixou o brinquedo de lado e ergueu os bracinhos.
 O que ele quer?  Samuel perguntou, confuso.
  Ora, no me diga que ainda no percebeu...
  Devo peg-lo no colo?
  Se voc quiser...
 Mas no sei como tir-lo do carrinho. Afinal, ele est deitado... Tenho medo de no peg-lo corretamente e causar-lhe um torcicolo, ou um mau jeito na coluna.
  No se preocupe  Catherine tranqilizou-o.  Os bebs no so to tensos quanto os adultos. Portanto, acho quase impossvel que voc consiga provocar-lhe algum dano.
  Mas...
  Gah...  disse o beb, agitando as perninhas.
 Veja s...  Catherine sorriu.  Ele est comeando a ficar impaciente.
 Oh, Deus.  Inclinando-se, Samuel procurava a melhor forma de tirar o pequeno Theo do carrinho. Ensaiava vrios gestos, com um embarao crescente.
  Coragem  Catherine o estimulou.
  O problema  que...
  Voc  muito inseguro, com relao a bebs  ela completou.
Samuel fitou-a com um misto de espanto e mgoa:
  Est assim to evidente?  perguntou, engolindo em seco.
 Sim  Catherine respondeu, pensando que se Samuel Winston houvesse assumido a paternidade de seu filho, teria poupado muitos sofrimentos a Helenna, alm de aprender a lidar com bebs.  Seja mais confiante.
 Vou tentar.  Tomando flego, Samuel pegou Theo nos braos, com gestos firmes, embora um tanto tensos.
  Est vendo?  disse Catherine.  No  to difcil assim.
 Muito mais do que voc pensa  Samuel sentenciou.  A propsito,  a segunda vez que voc diz isso, hoje.
 Por que acha to difcil relacionar-se com Theo? Voc no gosta de bebs?
 Adoro  ele respondeu, desviando o rosto, para que Catherine no presenciasse a amargura ali estampada.
O pequeno Theo tocou-lhe a face com a mozinha, num gesto que sugeria uma carcia.
O corao de Samuel derreteu-se, como neve ao sol.
 Este beb  to diferente dos outros...
 Por que diz isso?  Catherine indagou, curiosa.
 No sei. Mas h momentos em que tenho a impresso de que j nos conhecemos, ou de que temos uma ligao muito forte.
O corao de Catherine bateu acelerado, diante daquela declarao. E, por um instante, ela se perguntou se haveria chegado a hora de revelar a verdade.
Mas como faria isso, tensa daquele jeito? Sua pulsao estava to forte, que ela mal conseguia respirar.
 Mas claro que tudo no passa de impresso.  A voz de Samuel interrompeu-lhe os pensamentos.
 Afinal, nunca vi Theo, ou voc, antes.  E como se refletisse em voz alta, acrescentou:  Acontece que geralmente considero os fatos muito mais pelo lado emocional do que pelo racional. Por isso sinto-me to impressionado com Theo...
"Ser que ele no percebe o bvio?", Catherine pensou. "s vezes as pessoas consideram as possibilidades mais remotas, esquecendo-se da que est diante de seus olhos. Se Samuel Winston, ao menos por um momento, observasse atentamente Theo, entenderia o motivo dessa... ntida impresso, como ele mesmo diz."
 Entre  Samuel convidou-a.  E, por favor, feche a porta, sim?
Catherine assentiu com um gesto de cabea. Momentos depois, sentava-se diante de uma antiga mesa de mogno, muito bem conservada. Acomodado numa cadeira, do outro lado do mvel, Samuel mantinha Theo aconchegado em seus braos.
Catherine havia trazido o carrinho, colocando-o ao lado da mesa, que certamente datava do perodo colonial, como a casa. Alis, todos os mveis da biblioteca obedeciam ao mesmo estilo.
 Esta dependncia da casa  bem diferente das outras  Samuel comentou.
  Era exatamente nisto que eu estava pensando.
 Fiz questo de mant-la como era, no tempo em que meu pai vivia.
 Pa...  Theo repetiu, rindo.  Pa... Surpresa, Catherine sorriu para o beb:
 Voc est tentando dizer papai, meu anjo? No acha que  um pouco cedo, para isso?
 O pai de Theo... costuma v-lo?  Samuel indagou, relutante.
 O pai de Theo no sabe, ou no quer saber, de sua existncia  Catherine respondeu, asperamente.  E agora, se no se importa, gostaria de falar de trabalho.
  Certo.  Samuel sorriu, antes de anunciar:
  Voc est despedida.
 O qu?  ela reagiu, chocada.  Voc no pode estar falando srio...
 Despedida...  Samuel repetiu  como governanta. E contratada, como consultora de informtica.
 Com ar maroto, indagou:  Eu a assustei, no foi? Catherine respirou, aliviada. Mas franziu o cenho, ao dizer:
  No achei a menor graa na piada.
  Nem precisava dizer...
  Vamos falar a srio, agora?
  Sim.  Com ar pensativo, ele comentou:  A velha antipatia est de volta, no?
  Como assim?
 Aquela antipatia incontrolvel que desperto em voc...
  Se no se importa, prefiro no falar disso  Catherine o interrompeu. Fitando-o com severidade, perguntou:  Ser que enfim podemos conversar sobre o que realmente interessa?
  Claro.  Samuel assentiu, com um suspiro.  Vamos l. Acho que sua amiga Miranda j lhe contou que...
  J  Catherine tornou a intrromp-lo.
  Ela lhe falou, tambm, sobre o salrio?
  Sim.
  E o que voc achou da proposta que fiz?
 O que posso achar? Voc est pagando muito acima do preo de mercado.
  Isso quer dizer que aceita?
  Em termos... sim.
  O que quer dizer com... em termos?
  que antes de dar uma resposta definitiva preciso saber o que, exatamente, deverei fazer. Voc est com problemas no sistema de computao? Seu equipamento encontra-se em boas condies? Alm do mais...
  Calma  Samuel apartou, sorrindo.  Uma questo de cada vez, por favor.
 Costumo fazer essas perguntas a meus clientes. E eles, em geral, conseguem respond-las sem grandes embaraos.
  Isso, porque s ligam para voc quando tm um problema em mos.
   E no  este o seu caso?
 Na verdade...  Samuel levantou-se cuidadosamente, aconchegando o pequeno Theo contra o peito  tenho uma srie de problemas. E, se me permite ser ainda mais franco, estou atolado neles.
  Explique-se melhor, por favor.
  Venha e eu lhe mostrarei.
Empurrando o carrinho de Theo, Catherine seguiu Samuel para fora da biblioteca, at o corredor. E dali em direo a um grande aposento, que ficava no incio do corredor, prximo  escada.
Ela no conseguiu conter uma exclamao de espanto, quando Samuel abriu a porta.
  Este  meu escritrio  ele anunciou.
 Parece mais a personificao do caos  Catherine opinou, sem pensar.
 Est assim to terrvel?  Samuel perguntou, surpreso.
Catherine respondeu com um gesto afirmativo de cabea. Deixando o carrinho de Theo a um canto, comeou a caminhar pelo escritrio, com uma expresso crtica.
Havia cadeiras, livros, papis e disquetes espalhados por todos os lados.
O computador, impressora, fax e scanner ficavam sobre uma mesa. Pastas, livros e folhas com anotaes ocupavam o pouco espao que sobrava, entre os equipamentos.
Havia mais duas mesas, encostadas a uma parede, repletas de volumes embalados em papis celofanes.
Catherine aproximou-se e viu que se tratava de um dos livros escritos por Samuel.
 Vou do-los a algumas escolas dos bairros mais pobres da cidade, cujos alunos no teriam dinheiro para compr-los  ele explicou.
 Abrir o mundo da literatura a crianas carentes  um gesto muito louvvel  Catherine comentou.
  Cada um de ns deve colaborar para que este mundo seja melhor  Samuel sentenciou.  Como sou escritor, optei por esse caminho. H dois anos patrocinei, com a ajuda de vrias editoras, a formao de bibliotecas em escolas para crianas carentes. O projeto deu certo e, agora,  s mant-lo em andamento. A propsito, voc vai encontrar, nos meus arquivos, uma lista com nomes de escritores que doam suas obras, regularmente, a essas bibliotecas. E tambm vrios colaboradores, que contribuem para que o nmero de volumes continue aumentando, cada vez mais.
Theo remexeu-se, inquieto, no colo de Samuel. E estendeu os bracinhos para Catherine, que sorriu:
 At que enfim voc sentiu falta de mim...  Com muita delicadeza, e a habilidade adquirida ao longo dos meses, Catherine tomou o beb nos braos e beijou-o ternamente. Em seguida voltou-se para Samuel.  Voc est tendo problemas com seu computador?
 Sim. Ele vem trabalhando de modo muito lento. Talvez esteja sobrecarregado, devido aos vrios programas que instalei.
  Podemos lig-lo?
  Claro.
Pouco depois, Catherine verificava o sistema utilizado por Samuel. No carrinho, a seu lado, Theo brincava com a baleiazinha de borracha, de que tanto gostava.
Depois de um exame acurado, ela chegou a uma concluso:
 H programas realmente complexos, em seu micro. O Via Voice, por exemplo, ocupa uma boa parte da memria, assim como o Corel Drawn. Mas no  por isso que ele est lento.
  Ento, qual  o motivo?
  Um milho de arquivos temporrios.
  Um milho?  ele repetiu, espantado.
  Estou exagerando,  lgico. Mas o fato  que h uma grande quantidade de arquivos temporrios. Alm do mais, a placa de som me parece inadequada. H outros fatores, tambm...
  Vou lhe fazer uma confidncia  Samuel a interrompeu.
  Sim?
 No entendo nada de computao. S aprendi a lidar com esses programas, porque eram necessrios a meu trabalho.
Voc cria suas histrias diretamente no computador?
 s vezes, sim. H ocasies em que tenho prazo para entreg-las ao editor e, assim, acabo utilizando o computador, para poupar tempo. Mas, na verdade, prefiro escrever  mo... Ao menos quando estou criando.
Isso explicava, em parte, a desordem que reinava no ambiente, Catherine pensou. Havia folhas manuscritas espalhadas por todos os cantos, bem como cadernos espirais, brochuras e cadernetas.
  Sabe qual  o meu maior desejo?  Samuel indagou.
  Nem imagino.
  Encontrar uma pessoa que ponha ordem neste escritrio e, sobretudo, nos arquivos de meu computador.  Fitando-a com intensidade, ele acrescentou:  Acho que esta pessoa  voc, Catherine Glenn.
Ela sorriu, entre irnica e lisonjeada.
 Sou uma consultora de informtica, lembra-se? Posso trabalhar com razovel eficincia, mas no sei fazer milagres.
 J entendi.  Samuel cruzou os braos e sorriu.  Voc est horrorizada com esta baguna, no  mesmo?
 Horrorizada, exatamente, no. Apenas, no tenho a menor idia de por onde comear...
Ele ficou em silncio, por alguns instantes, antes de dizer:
 Vou lhe contar uma pequena histria, que h vrias geraes vem sendo passada de pai para filho, em minha famlia. Quando meu bisav veio para c e comprou essas terras, passou vrias semanas acampado, pensando em tudo o que teria de fazer: construir uma casa, canalizar a gua do rio que corta o bosque nos fundos da propriedade, beneficiar parte da terra... E a certa altura ele confessou, a um amigo que o acompanhava, o quanto estava assustado. Disse que simplesmente no sabia por onde comear. Ento, seu amigo afirmou:
  Por qualquer ponto.
Meu av estranhou a resposta. Mas o homem insistiu:
  Qualquer ponto pode ser a partida, quando no se sabe ao certo por onde ir. Os homens s vezes tentam desafiar o destino. Planejam, passo a passo, a realizao de seus sonhos, como se assim pudessem dominar a realidade, ou se prevenir contra quaisquer problemas. Que grande engano... Se voc est em meio ao caos, comece a organiz-lo, partindo de qualquer ponto. Se der o primeiro passo com firmeza, boa vontade e deciso, saber como dar o segundo... E o terceiro... E todos os demais. Quando se quer construir, seja uma casa, ou qualquer outra coisa, deve-se comear. Depois disso, j no ser possvel parar... S mesmo no fim!
  Sbias palavras  Catherine opinou.
 Ser que voc poder aplic-las a este caos?  Samuel perguntou, com um gesto amplo, que parecia abranger todo o escritrio.
  D!  gritou Theo, no carrinho.
  Est vendo s?  Samuel sorria.  Ele aprovou a idia.
Catherine no queria, mas sorriu de volta e indagou:
 Voc  sempre assim, to obstinado em conseguir o que quer?
 S quando vale a pena  ele respondeu, de sbito muito srio.  E tenho certeza absoluta de que voc  a pessoa ideal, para organizar este escritrio.
  Bem, obrigada pela confiana.
  S h um problema...
  Qual?
  No sei se terei tempo de contratar uma governanta, antes de viajar. Pensei em pedir  srta. Miranda Gladson que me arranjasse uma. S que talvez eu no esteja aqui, para receb-la.
 Por que no deixa para contrat-la quando voltar? Catherine sugeriu.
  Porque voc precisar dela.
  Eu?
  Sim, claro. Algum ter de organizar a casa, cuidar de Dougal, preparar as refeies...
  Eu mesma darei conta disso, se voc no se importar.
 Mas  lgico que me importo.
  Por qu?
  Porque no seria justo voc acumular tantas funes.
 No?  Catherine retrucou, irnica.  Acontece que costumo fazer isso, vinte e quatro horas por dia: sou dona de casa e profissional free-lance.
  E ainda por cima cuida de Theo?
  Sim.
  Quem voc , afinal, Catherine Glenn? Uma supermulher?
Ela meneou a cabea.
 Nada disso, Samuel Winston. Sou apenas mais uma lutadora, entre as muitas mulheres de nosso pas e do mundo. Mulheres que combinam a administrao do lar e a produo profissional,  custa de um grande desgaste,  verdade... Mas isso tambm rende muita satisfao. Quando me deito,  noite, depois de um dia atribulado, no tenho vontade de me queixar. Ao contrrio: h ocasies em que me sinto privilegiada por ter Theo, meu trabalho, minha casa... Afinal, so esses os pontos cardeais de minha vida.
Para surpresa de Catherine, suas palavras comoveram Samuel.
  Voc  uma pessoa admirvel, sabia? Alm de bonita e encantadora, possui inteligncia, dinamismo...
 Ora, pare com isso  ela pediu, enrubescendo.
 Por qu?
  Sempre fico embaraada, quando me elogiam.
  Eu apenas disse a verdade.
  Mesmo assim, sinto-me...  Catherine no concluiu a frase.
Samuel a fitava com tamanha intensidade, que parecia devassar-lhe os mais secretos pensamentos. Isso a incomodava, mas tambm fazia seu corao pulsar acelerado, movido por uma espcie de temerria alegria.
  Por que est me olhando desse modo?  ela perguntou, com a voz embargada pela emoo.
  No sei... O fato  que voc me fascina, Catherine Glenn. Confesso que estou encantado.
  Pois no deveria  ela disse, de sbito, mudando totalmente de tom e expresso.
  Por que no?  ele indagou, confuso.
  Porque seria pura perda de tempo.
  Como pode ter tanta certeza?
Manobrando o carrinho de Theo, Catherine conduziu-o at a porta. Encarou Samuel com firmeza e ento declarou:
  que no tenho nada a oferecer.  E afastou-se pelo corredor.
 Catherine!  Samuel chamou-a, num tom ansioso.  Espero que no tenha me levado a mal. Eu... apenas confessei o que estava sentindo.
 Sem problemas  ela retrucou, virando-se por um momento.  Eu gosto de franqueza.  J havia se afastado mais alguns passos, quando se voltou novamente.  A propsito, vou comear o trabalho daqui a pouco. Preciso apenas de tempo para trocar Theo e dar-lhe uma mamadeira.
- Sinta-se  vontade. No sou do tipo que fica fiscalizando os horrios de entrada e sada de seus funcionrios. Para mim, o que conta  a eficincia, e no as horas trabalhadas.
Mais uma vez, Catherine parou e virou-se para indagar:
  Voc tem outros funcionrios, alm de mim, Samuel?
 Sim, vrios: uma cozinheira, duas copeiras, duas faxineiras, um jardineiro e seu ajudante.
  E onde est toda essa gente?
 Descansando. S regressaro daqui a quinze dias. Como eu ia viajar...
 Resolveu dar-lhes frias coletivas  Catherine completou.
  Isso mesmo.
  Bem, quando voc partir?
  Hoje, no final da tarde.
  Ficar fora por quinze dias?  isso, no?
  Exato.
  Nesse caso, desejo-lhe uma boa viagem.
 Por que j est se despedindo? Espero v-la novamente, antes de partir.
Catherine no respondeu. Continuou empurrando o carrinho de Theo, at a sute que seria a moradia de ambos, durante as duas semanas seguintes.
Mal chegou  sute, ela atirou-se na cama, com o corao aos saltos.
Havia subestimado a fora e o carisma de Samuel Winston. Aquele homem era capaz de comov-la, fascin-la, diverti-la... Enfim, era capaz de tudo!
"Preciso estar prevenida", ela se recomendou, mordendo o lbio inferior, em sinal de nervosismo.
A imagem de Helenna invadiu-lhe a mente, enquanto seus olhos enchiam-se de lgrimas.
"Minha irmzinha querida", Catherine pensou, "agora compreendo que voc no tinha outra opo, seno cair apaixonada por Samuel Winston... Sensvel, romntica e sonhadora como era, como poderia defender-se de seus encantos? S h uma coisa que no consigo entender... No d para imaginar Samuel negando a paternidade de Theo. Ele no me parece esse tipo de homem. E s essa pea do quebra-cabea que est difcil de encaixar. Ou talvez eu esteja sendo excessivamente ingnua? Talvez Samuel tenha me mostrado apenas seu lado gentil, amvel e carismtico..."
Catherine meneou a cabea, num gesto de negao. Sentia-se to confusa.
Uma onda de angstia ergueu-se em seu ntimo. Estava traindo a memria de Helenna, essa era a verdade. Estava renegando a promessa que fizera a si prpria, no dia em que decidira conhecer Samuel pessoalmente. E tudo por qu?
Um profundo suspiro brotou do peito de Catherine. Sinceramente, ela no sabia, ou no queria, responder essa pergunta.




CAPITULO VI


Samuel chegou ao aeroporto de Melbourne quarenta minutos antes do vo para Canberra onde, no dia seguinte, daria uma tarde de autgrafos. Dali Samuel partiria em turn pelo pas, passando por Adelaide, Perth, Alice Springs e Darwin.
Em geral, Samuel gostava de fazer turns. Alm de divulgar seu trabalho, dar palestras e promover debates, acabava conhecendo novos lugares e pessoas.
Nunca fora um grande amante da vida social, mas conseguia sair-se bem em jantares, encontros, congressos e, sobretudo, em tardes de autgrafos.
Ao contrrio de vrios colegas escritores, que levavam uma vida solitria e detestavam qualquer tipo de contato social, Samuel nunca protestava, quando seu editor o convocava a algum compromisso desse tipo.
Em geral, sua rotina era muito simples: acordava cedo, fazia um rpido desjejum, s vezes dava uma volta com Dougal pela propriedade e depois se sentava para trabalhar.
No se passava um dia, sem que escrevesse algo. O exerccio de escrever era muito importante para manter a forma, Samuel costumava dizer.
Era verdade que nem sempre estava inspirado e que, muitas vezes, descartava o trabalho de horas a fio, por no julg-lo suficientemente bom.
Mas isso no o aborrecia. Afinal, ele era um homem e no uma mquina de fazer livros.
Depois de apresentar-se no balco de embarque e despachar sua bagagem, Samuel entrou no bar do aeroporto, para tomar um drinque.
Ao contrrio de tantas outras vezes em que partia em turn, no se sentia com muita disposio para viajar. A verdade era que preferia ter ficado em casa, na companhia de Catherine e do pequeno Theo.
Era incrvel como aqueles dois seres lhe pareciam importantes... Embora mal os conhecesse. Theo era como o filho que ele adoraria ter, apesar de saber que isso seria impossvel.
J Catherine Glenn... Bem, fazia muito tempo que Samuel no se sentia to impressionado com uma mulher.
Aos trinta e cinco anos, Samuel Winston considerava-se um homem maduro e experiente. Levava uma vida solitria, mas era um homem saudvel, no auge da sensualidade e vigor.
Vez por outra, passava a noite com mulheres interessantes, que encontrava casualmente num jantar ou evento literrio.
Samuel fazia questo de no firmar compromisso srio, com nenhuma delas. E quando uma mulher comeava a se apegar demais, ele mesmo a alertava de que no tinha a menor inteno de casar-se novamente. Pois no se sentia preparado para uma nova experincia de vida a dois. Sofrer muito com Christine, e ainda no estava totalmente recuperado.
Alm do mais, gostava de seu estilo de vida. Morava num lugar adorvel, tinha conseguido sucesso em sua profisso, enfim, podia se considerar um homem realizado.
Sorvendo um gole de seu drinque, sentado a uma mesa do bar do aeroporto, Samuel disse a si mesmo que no, que ainda faltava algo para que se sentisse totalmente feliz.
No tinha conscincia disso, at aquela manh, quando Catherine e Theo haviam entrado em sua casa, em sua vida.
O que lhe faltava era uma famlia, ele constatou, recostando-se na cadeira.
Era verdade que tinha uma irm, um cunhado e dois sobrinhos, a quem estimava muito. Perdera os pais pouco depois de ingressar na Faculdade de Letras da Universidade de Melbourne, muitos anos atrs. Na poca, sua irm, Jssica, era apenas uma adolescente. Uma tia viera morar com eles, logo aps a morte dos pais. Ela faleceria cinco anos depois, deixando um grande vazio no corao de ambos.
Jssica estava, ento, com vinte anos. Ele, com vinte e cinco, tinha acabado de conseguir seu primeiro emprego como professor de literatura.
 Al.  Algum tocou o ombro de Samuel. Voltando-se, ele deparou com Sheylla Masterson, relaes-pblicas da Editora Spring, que publicava suas obras.
  Que surpresa encontr-la aqui!  Samuel exclamou.
 No se trata de uma coincidncia, Sammy.  Inclinando-se em sua direo, ela explicou:  Trago um recado do chefinho.
Samuel sorriu, enquanto com um gesto convidava Sheylla a sentar-se  mesa.
Chefinho era o modo carinhoso, e a um s tempo divertido, com que Sheylla tratava Jonathan Mac-Culley, editor-chefe da Springs e amigo pessoal de Samuel.
 Quer beber alguma coisa, antes de meu embarque?  Samuel ofereceu.
 Nosso embarque, meu bem  Sheylla o corrigiu, antes de anunciar:  Irei com voc at Canberra, onde tenho negcios da editora a tratar.  Num tom confidencial, acrescentou:  Estamos prestes a conseguir uma parceria com empresrios interessados em incrementar o mercado editorial de l.
 Nesse caso, desejo-lhe sorte. Voc  uma tima relaes-pblicas e tenho certeza de que conseguir firmar bons acordos com eles.
 Deus o oua, querido. Agora seja um bom menino e pea um drinque para mim.
  O que vai tomar, Sheylla?
  O de sempre.
Samuel franziu os olhos, tentando recordar-se da bebida preferida de Sheylla.
 Oh, no me diga que esqueceu, Sammy!  ela o repreendeu, num tom exageradamente dramtico, que soava cmico.
  Desculpe, mas no me recordo.
  Ento, vou lhe dar uma pista: Martni seco, sem gelo.
Samuel sorriu:
  Claro. E sua bebida preferida.
Fazendo um sinal para o garom, Samuel pediu o drinque.
  E voc, o que est tomando, querido?
  Um scotch.
  Nossa, isso  muito forte, Sammy!
  H quem goste...  Samuel sorveu mais um gole do drinque.
 Vocs, australianos, so todos uns brutos  ela o provocou, em tom de gracejo.
  E os americanos por acaso so mais gentis?  ele rebateu, fingindo-se ofendido.
  Sem dvida alguma!
  Entretanto, voc continua por aqui...
  Algum dia voltarei para meu pas, Sammy.
 Tomara que esse dia demore a chegar  Samuel sentenciou, num tom amvel.  Pois os brutos gostam muito de voc, sabia?
  Ora, voc diz isso a todas...
Ambos riram, com a camaradagem desenvolvida ao longo de vrios anos de conhecimento.
Sheylla era uma mulher alta, um tanto magra, que chamava a ateno pelos longos cabelos loiro-platinados e pelos olhos castanhos, muito vivazes e brilhantes. Tinha um corpo proporcional e, embora no fosse exatamente bonita, esbanjava simpatia e encanto.
Samuel a conhecera pouco tempo depois de ser contratado pela Editora Springs. Simpatizara de imediato com ela e no relutara em demonstrar sua afeio.
Logo, ambos haviam se tornado bons amigos. Na poca em que Samuel se divorciara, correra o boato de que ele estava prestes a comear um caso amoroso, com Sheylla. Porm, isso no chegara a acontecer. Afinal, tanto Samuel, quanto ela, sabiam que o lao que os unia era da mais pura amizade.
Cerca de um ano depois, Sheylla e Jonathan Mac-Culley haviam comeado a namorar. Samuel alegrara-se muito com o fato, pois estimava ambos e desejava-lhes toda a felicidade do mundo.
 Bem, qual  o recado de Jonathan?  Samuel perguntou, depois que o garom trouxe o drinque de Sheylla.
Ela provou um gole da bebida e levou alguns instantes para responder:
 Sua turn vai durar apenas sete dias e no quinze, como estava programado.
   Por qu?
 Porque a Academia de Letras da adorvel cidade onde moramos vai oferecer-lhe um jantar, dentro de nove dias. E voc no pode faltar.
   Mas e os compromissos com...
  No se preocupe, Sammy  ela o interrompeu.  O chefinho j os transferiu para uma outra ocasio.  Aps uma pausa, indagou:  Ficou muito aborrecido?
  Sinceramente, no.
 Ora!  ela exclamou, surpresa.  Voc sempre reage muito mal a essas mudanas de ltima hora.
  Acontece que a idia de voltar para casa mais cedo me agrada profundamente.
  No diga!  Sheylla sorveu mais um gole de seu drinque e meneou a cabea.  Os escritores, decididamente, so imprevisveis.
 E pontuais, minha cara  Samuel retrucou, depois de consultar o relgio.  No quero apress-la, mas acho melhor sairmos daqui, pois embarcaremos em quinze minutos.
 Nossa, como o tempo voa, Sammy!  Sheylla riu.  Os avies tambm... E no esperam os retardatrios!
Samuel assentiu com um gesto de cabea, enquanto chamava o garom, para pedir a conta.
Pouco depois, ambos saam o bar e dirigiam-se ao porto de embarque. Sheylla levava apenas a bolsa e o notebook. Samuel, uma pequena valise. J haviam deixado o resto da bagagem no balco da companhia area pela qual viajariam.
Os lugares de Samuel e Sheylla eram separados. Entretanto, ela logo de um jeito para que ficassem juntos. Com sua simpatia e amabilidade habituais, pediu ao passageiro sentado ao lado de Samuel que trocasse de poltrona. O homem, naturalmente, no se negou a faz-lo. E ganhou um largo sorriso como recompensa.
 Algum j lhe disse que voc  a pessoa mais simptica que a Amrica do Norte j deu ao mundo?  Samuel gracejou, quando Sheylla acomodou-se a seu lado, com ar triunfante.
Como resposta, ela apenas sorriu, enquanto ajeitava os cabelos platinados, que caam-lhe at o meio das costas.
  Com esse seu jeitinho, consegue tudo o que quer...  Samuel insistiu.
  Quem me dera que isso fosse verdade!  a voz de Sheylla soou numa exclamao abafada, traindo uma ponta de tristeza.
 Ora, a que se deve esta sbita melancolia?  Samuel perguntou, surpreso.
  Oh, nada.  Sheylla desviou o rosto.  Deixe para l, querido. E agora, que tal trocarmos de lugar?
  Por qu?
 Porque apesar de meus trinta aninhos, adoro viajar perto da janelinha...
Ele riu, enquanto se levantava.
  Voc s vezes parece uma garotinha.
 E espero continuar assim at morrer, Sammy. Afinal, todos ns, adultos, somos no fundo crianas crescidas.
  E verdade, Sheylla.
O vo partiu com cinco minutos de atraso. A noite descia sobre Melbourne. J em Canberra, caa uma chuva torrencial. Um representante do clube literrio que promoveria a tarde de autgrafos de Samuel, no dia seguinte, o esperava no aeroporto.
Samuel apresentou-o a Sheylla e ele convidou-os a jantar. Em seguida, acompanhou-os at o hotel onde se hospedariam.
Sheylla j havia reservado uma sute no mesmo andar onde Samuel ficaria.
Ambos combinaram de se encontrar dentro de uma hora, no bar do hotel, para tomar um licor, antes de dormir. Afinal, no dia seguinte, teriam pouco ou nenhum tempo para se ver.
A primeira coisa que Samuel fez, em sua sute, foi tirar da mala as roupas que usaria no dia seguinte. Depois tomou uma ducha e, vestindo um roupo atoalhado, sentou-se numa confortvel cadeira de balano, ao lado da cama. Enxugou os cabelos negros, friccionando-os com vigor. Depois, recostando-se na cadeira, fechou os olhos e procurou relaxar. A primeira imagem que lhe veio  mente foi de Catherine. E Samuel sentiu uma vontade quase irresistvel de v-la... Ou ao menos de ouvi-la.
Tomando uma sbita deciso, levantou-se e caminhou at o telefone, que ficava sobre um console. Com uma ansiedade inexplicvel, teclou o nmero de sua casa e aguardou. Escutou a campainha soar vrias vezes, sem que ningum atendesse. J estava desistindo, quando por fim ouviu a voz sonolenta de Catherine, do outro lado da linha.
  Al?
  Catherine? Voc j estava dormindo?
  Quase... Que horas so?
  Dez e quinze da noite.  Samuel sentia-se terrivelmente embaraado, alm de arrependido por ter cedido quele impulso.  Desculpe-me por importun-la. Liguei apenas para saber como vo a coisas, por a.
 Tudo bem  ela respondeu, j mais desperta.  E esquea as desculpas, sim? Afinal, sou uma funcionria nova... E muito natural que voc queira saber como estou me saindo.
  No foi por isso que telefonei  Samuel confessou, frustrado. - Apenas desejava saber se voc, Theo e Dougal esto bem.
  Claro que sim. No se preocupe.
 Eu no estava preocupado  ele afirmou, sentindo-se cada vez pior. Como explicar a Catherine que s queria ouvir sua voz?  Na verdade...
Samuel no completou a frase. De repente, sentia-se constrangido, como um adolescente romntico perante a garota mais bonita da classe.
 Dougal est sentindo sua falta. Ficou um bom tempo ganindo, l na varanda, quando voc partiu.
 Ele sempre faz isso. Mas, depois, acaba se acostumando com minha ausncia.
 Os cachorros so muito sentimentais. Consolei-o o quanto pude, mas quem realmente conseguiu anim-lo foi Theo.
  E mesmo?
  Sim. Os dois, decididamente, j so grandes amigos.
 Que bom.  Samuel fez uma pausa.  Fale-me mais de Theo.
Catherine levou alguns momentos para dizer:
 Ele brincou muito com Dougal e ficou sujo como um porquinho. Dei-lhe um bom banho e uma mamadeira. Da, ele dormiu como um anjo... E assim est, at agora.
  E quanto a voc, Catherine?
 Eu? Bem, j consegui arrumar uma pequenina parte daquele caos que voc chama de escritrio.
Samuel suspirou.
 Eu no estava perguntando sobre seu trabalho e sim sobre... voc.
 Acho que conseguirei organizar tudo, antes de seu regresso.  Foi a resposta polida e distante de Catherine.
Compreendendo que ela estava mesmo fazendo questo de manter a relao de ambos restrita ao campo absolutamente profissional, Samuel desistiu de qualquer outra tentativa de proximidade.
Talvez, quando voltasse para casa, conseguisse chegar mais perto daquela mulher bela, inteligente, brilhante... Que no entanto guardava, no corao, uma terrvel revolta.
"Uma revolta certamente causada pelo pai de Theo", Samuel pensou. "Mas que homem poderia ser to cruel ou idiota, a ponto de ferir uma mulher sensvel como Catherine Glenn?"
 Voc ainda est a?  A voz de Catherine arrancou-o das divagaes.
  Sim.
  E deseja perguntar mais alguma coisa?
"O que eu lhe fiz, Catherine Glenn, para que voc me trate com tanta rispidez?", Samuel indagou, em pensamento, antes de responder:
  No, quero apenas desejar-lhe boa noite.
  Obrigada. O mesmo para voc.
  Qualquer problema, ligue para mim.
 Fique tranqilo. Est tudo bem.
 Certo. Se quiser anotar o nmero aqui do hotel...
  No  necessrio. Tenho o de seu celular.
   mesmo. Bem, boa noite, Catherine.
  Boa noite.
Samuel desligou e voltou a sentar-se na cadeira de balano. Fechou os olhos e, dali a pouco, ressonava suavemente.
Acordou com o som do telefone, que tocava sem cessar.
  Quem ser?  resmungou, apressando-se a atender.  Al?
  Sammy? Voc se esqueceu do nosso encontro aqui no bar?
Reconhecendo a voz de Sheylla, ele perguntou:
  Mas j est na hora?
  Na verdade, j passou da hora. So mais de onze, querido.
 Minha nossa!  Samuel sobressaltou-se.  Desculpe, Sheylla, mas acabei pegando no sono e...
  Quer deixar nosso licor para uma outra ocasio?  ela o interrompeu.
Samuel sentiu-se tentado a dizer sim, a cancelar o encontro. Pois ambos j tinham se visto e conversado o suficiente.
  Voc ficaria muito ofendida, se eu...
 Claro que no, Sammy  ela o interrompeu novamente, traindo uma forte decepo na voz.  Eu... de fato no me importo. Talvez nos vejamos amanh. Se eu conseguir chegar a tempo do encontro com os empresrios, comparecerei a sua tarde de autgrafos... Certo?
  Errado, Sheylla  ele respondeu, sorrindo.
  Como?
  Voc  uma pssima mentirosa, sabia?
  Por que diz isso?
 Porque  mentira que no se importa em cancelar nosso encontro.
  Claro que . Mas tambm no quero for-lo a me ver.
 Ora, no diga tolices. Espere-me um minuto, sim? J estou descendo.
  Mas...
 Nada de mas, senhorita.  Samuel desligou e, pouco depois, descia at o bar do hotel.
Sheylla o esperava a uma mesa de canto, prxima  sada para um terrao que tinha, ao centro, uma piscina.
  Uma coisa ns, mulheres, temos de reconhecer...  ela disse, ao v-lo.  Os homens so muito mais prticos para se vestir. Tambm, no precisam se maquiar, nem usar cremes para disfarar as rugas.
 Ora, no exagere.  Samuel sorriu, enquanto se sentava.  Voc ainda no chegou nessa idade, garota.
 Entretanto, h ocasies em que me sinto, realmente, muito velha.
  Ora, que conversa mais boba... Voc  uma mulher muito atraente, Sheylla.
  Sou mesmo?  Ela o fitou com intensidade.  Ento, por que voc nunca quis nada comigo?
S ento Samuel percebeu que Sheylla estava alcoolizada. Seus olhos castanhos, um tanto congestionados pela bebida, tinham um brilho diferente. E seus gestos eram lentos.
  Quantos drinques voc bebeu, enquanto me esperava?  Samuel indagou, preocupado.
 Alguns  ela respondeu, dando de ombros.  Mas o que isso importa?
 Muito,  claro.  Tomando-lhe a mo, Samuel sugeriu:  Que tal se dssemos um passeio ao redor da piscina?
Antes  que Sheylla respondesse,  o garom se aproximou.
  Um scotch, por favor  Sheylla pediu.
 No, obrigado  disse Samuel, num tom gentil.  Acho que no vou beber nada, agora.
  No pedi o drinque para voc, querido, e sim para mim  Sheylla explicou, com um sorriso dbil.
  Voc est tomando scotch?  Samuel espantou-se.  Pensei que o achasse forte demais. No me admira que tenha ficado assim.
 Assim... como?
Samuel lanou um olhar significativo ao garom, que se afastou gentilmente.
 Voc no respondeu minha pergunta  Sheylla protestou.
  Que pergunta?  Samuel indagou.
  Voc disse que eu fiquei... assim. O que isso significa, Sammy querido?
 Significa que devemos passear um pouco. Venha.  Levantando-se, Samuel praticamente arrastou-a at o terrao. Sheylla andava com passos incertos e ele enlaou-a pela cintura, para ampar-la.
  Aqui h gente demais  Sheylla comentou, aborrecida, a certa altura.  Por que no me leva para um local mais... sossegado?
  Vamos nos sentar num daqueles bancos?  Samuel props, apontando um local  esquerda, onde havia vrios bancos de madeira tosca, em torno de um chafariz.
   uma tima idia, querido  ela aprovou, aconchegando-se em seu peito.
Samuel franziu o cenho. Conhecia Sheylla h vrios anos e nunca a vira perder o controle daquela maneira. Algo de errado estava acontecendo, disso no restava dvida.
As suspeitas de Samuel se confirmaram quando Sheylla, deixando-se cair sobre um banco, comeou a chorar baixinho.
  O que houve, querida?  ele perguntou, penalizado.
Erguendo o rosto, ela sorriu, por entre as lgrimas:
 Voc me chamou de... querida? Por favor, faa isso de novo, sim?
Samuel afastou-lhe os cabelos loiros-platinados, que caam-lhe na testa. Num tom suave, afirmou:
 Voc est muito triste. Se quiser um ombro amigo, para desabafar... aqui estou.
 Neste momento, necessito de mais do que um ombro, Sammy  ela respondeu, fitando-o nos olhos.  Preciso de voc.
  Todos ns precisamos dos amigos, Sheylla.
 No se faa de rogado, Sammy Winston. Voc entendeu, muito bem, o que eu quis insinuar.
Ele sorriu, com certa melancolia, enquanto me-neava a cabea.
  E voc sabe, muito bem, que a amizade  o nico lao que nos une.
Baixando os olhos, Sheylla indagou, num tom quase inaudvel:
 Voc nunca me desejou como mulher... no  mesmo?
  Exato, querida. E mesmo que a desejasse... bem, eu jamais poderia me esquecer que voc  namorada de Jonathan.
  Era.
  Como assim?
 Eu e Jonathan rompemos, na semana passada.  E Sheylla comeou a chorar.
 Agora entendo por que voc est to arrasada.
  Acho que nunca mais me recuperarei desse golpe, Sammy.
 Mas por que terminaram essa relao to bonita?  Samuel perguntou, confuso.  Vocs se amam tanto!
 Jonathan  um cabea-dura. E tem um orgulho maior do que o mundo.
 Ele  temperamental, eu sei. E seu gnio tambm no  l muito fcil, Sheylla. Mas da a romper o relacionamento...
  O difcil  que vamos continuar trabalhando juntos  ela comentou, ignorando a interferncia de Samuel.  Mas no sei se agentarei.  Sheylla riu, com amargura.  Veja s como estou descontrolada... Acabei de me oferecer para voc! E, no entanto, sei que jamais conseguirei me relacionar com outro homem, a no ser Jonathan... Aquele grande cretino!  concluiu, sacudida por um soluo.
 Chore, amiga...  Samuel recomendou, suavemente, enlaando-a pelos ombros.  D vazo a sua mgoa e, depois, se sentir melhor.
  Nunca me sentirei melhor. No depois de perder Jonathan.
  No seja to dramtica. Voc no o perdeu.
  Dessa vez foi para valer, Sammy...
Samuel ia dizer algo para consol-la, mas uma voz soou, atravs dos alto-falantes instalados no terrao.
 Srta. Sheylla Masterson, por favor, queira comparecer ao saguo de recepo.
  Ouviu isso?  Samuel perguntou.
  O qu?  ela indagou, desde o fundo de seu sofrimento.
  Voc est sendo chamada na recepo do hotel.
  Eu?
  Sim. A menos que exista outra Sheylla Masterson, por aqui...
  Mas por que esto me chamando?
  Como posso saber?
  Oh, Sammy, no me sinto com a menor disposio para ir at l.
  Mas...
 Faa-me um favor, sim? V ver quem  o chato que est me procurando e mande-o voltar numa outra hora.
  Mas quem poder ser?
 Talvez um dos empresrios com quem me encontrarei, amanh.
Esse ltimo argumento de Sheylla acabou por convencer Samuel. Era improvvel que um empresrio a procurasse, quela hora, para falar de trabalho. Mas, se fosse esse o caso, Sheylla no estaria em condies de tratar do que quer que fosse.
  Est bem.  Samuel levantou-se.  Irei at l e verei do que se trata. Mas prometa que no sair daqui.
 Eu no poderia fazer isso, ainda que quisesse  ela respondeu, indiferente s lgrimas que voltavam a correr-lhe pelo rosto.
Compadecido, Samuel confortou-a:
 Esse momento difcil vai passar, pode apostar nisso.  E afastou-se em direo ao bar. Atravessou-o e saiu no saguo do hotel.
Aproximou-se do balco e j ia perguntar ao recepcionista quem estava  procura de Sheylla Masterson, quando viu Jonathan MacCulley sentado numa poltrona, a um canto.
 Jonathan!  exclamou, surpreso.  O que faz por aqui?
 Vim ver aquele furaco em forma de mulher.
Onde est ela, Sammy?
  No terrao... sofrendo por voc.
 Ah, ela no me ama de verdade. Se gostasse de mim apenas um pouquinho, no seria to intransigente e cruel.
 Tenho a impresso de que Sheylla pensa o mesmo a seu respeito.  Tomando o amigo pelo brao, Samuel conduziu-o ao local onde Sheylla se encontrava.
 Estou sonhando, Sammy?  disse ela, ao ver ambos se aproximando.  Oh, certamente j cheguei ao delrio alcolico, pois acabo de ver...
Antes que Sheylla terminasse a frase, Jonathan correu e tomou-a nos braos.
  Ento  verdade!  Sheylla exclamou, num tom abafado, antes que Jonathan a beijasse com paixo.
Compreendendo que j nada mais tinha a fazer por ali, Samuel afastou-se. Voltou ao bar, pagou a conta de Sheylla e subiu  sua sute.
Levou a cadeira de balano at a varanda do quarto e ali sentou-se, para contemplar a noite. A chuva j havia passado e algumas estrelas brilhavam, no cu.
Um longo tempo se passou, enquanto Samuel deixava que os pensamentos voassem, livres.
Aquela hora, Sheylla e Jonathan certamente estariam se amando, com um ardor redobrado, recuperando o tempo perdido com rancores e mal-entendidos.
Samuel sorriu. Sentia-se feliz, por aqueles dois amigos to queridos.
 Mas e quanto a mim?  perguntou-se, baixinho.  Quando terei, de volta, a felicidade? Se  que algum dia j a desfrutei...
Apenas o silncio da noite respondeu a sua indagao, enquanto a imagem de Catherine Glenn insinuava-se em sua mente, com uma nitidez cruel.



CAPTULO VII


Catherine andava por uma praia deserta, deliciada com o contato da areia macia sob os ps descalos.
O sol se punha no horizonte, num espetculo de indescritvel beleza. Ao longe, as nuvens pareciam incendiar-se, tingindo-se de tons que variavam do dourado ao prpura.
Catherine desfrutava uma sensao de paz. A brisa marinha despenteava-lhe os cabelos ruivos, como se os acariciasse.
A certa altura, Catherine decidiu entrar no mar. Tirou a tnica de seda indiana que usava sobre o biquni e experimentou a temperatura da gua. Estava clida e muito agradvel, ela constatou, enquanto avanava mar adentro.
Passou pela linha de rebentao e mergulhou, para emergir vrios metros adiante. Olhou na direo da praia e ento viu,  mgica lz do crepsculo, a silhueta de um homem.
Um sorriso insinuou-se em seus lbios. Mesmo assim,  distncia, sabia de quem se tratava: do nico homem a quem poderia amar, neste mundo...
Percebendo que Catherine o observava, ele acenou e entrou no mar. Veio a seu encontro, com um olhar radiante e um sorriso pleno de significados.
  Samuel...  ela murmurou, reconhecendo-o.
 Catherine...  Ele tomou-a nos braos, para um beijo longo e apaixonado.
Depois, ambos flutuaram abraados por um bom tempo, entre risos e comentrios ora doces, ora divertidos. Na verdade, j no importava o que diziam. O prazer de estarem juntos, como se fossem um s ser, no poderia ser descrito por palavra alguma-
  Vamos sair?  Catherine props, a certa altura.
  Est cansada?  ele perguntou, acariciando-lhe o rosto.
  No. Mas a noite j caiu e a temperatura tambm...
Sorrindo, ele ergueu-a nos braos e levou-a at a praia.
 Voc est precisando de um pouco de calor  disse, envolvendo-a nos braos.
  E tambm de muito amor  ela respondeu, aconchegando-se contra aquele peito que parecia proteg-la de todos os perigos do mundo.
Samuel beijou-a docemente, nos lbios, nos olhos, nas faces... Catherine o atraiu para si, deitando-se na areia. E ali, sob o cu estrelado, embalados pela eterna msica das ondas, ambos se amaram. O mundo j no existia. O tempo no mais contava. Estavam no Paraso e nada poderia turvar tanta felicidade.
De sbito, um vento forte comeou a soprar. As estrelas se apagaram no firmamento e um raio riscou o cu.
Os troves soaram, ameaadores, prenunciando uma terrvel tempestade.
Catherine abriu os olhos, no quarto s escuras. Levou alguns segundos para compreender onde estava.
Tateou o criado-mudo, at encontrar o abajur. Acendeu-o e suspirou, profundamente.
Acabava de ter um sonho impressionante. E era a segunda vez que isso acontecia.
Na primeira noite em que dormira na casa de Samuel Winston, sonhara que fazia amor, com ele.
 E, agora, de novo  ela lamentou-se, baixinho.
O que estava acontecendo, afinal?
Se mal conhecia aquele homem, como ele podia significar tanto, a ponto de insinuar-se em seu subconsciente?
Catherine sentou-se na cama, apoiando-se nos travesseiros.
O que mais a inquietava era que, no sonho, tinha plena certeza de que Samuel era o homem de sua vida.
Mesmo quando acordava, ainda levava algum tempo para cair na realidade.
Como era possvel sentir-se desse modo por algum que, at poucos dias atrs, provocava-lhe to fortes ressentimentos?
Catherine sempre deixava um copo de gua, no criado-mudo, ao deitar-se. Pegando-o, sorveu alguns goles, numa tentativa de se acalmar.
Aquela era a stima noite que passava na casa de Samuel Winston. Ainda restavam vrios dias, at sua volta.
Catherine j havia realizado a maior parte do trabalho, naquela semana. Para comear, fizera uma boa faxina, no escritrio.
Organizara os livros, guardara as folhas manuscritas em pastas e, os cadernos, numa estante.
Havia tambm mudado a disposio dos mveis: o microcomputador agora ficava prximo  janela. Assim, enquanto trabalhasse, Samuel poderia contemplar os canteiros de flores multicoloridas e, mais alm, o bosque.
As outras duas mesas, dispostas em forma de "L", a um canto do cmodo, haviam sido polidas e pareciam novas. Sobre uma delas, destacava-se um vaso de gernios cor-de-rosa, muito bonitos. Sobre a outra, Catherine colocara um vaso de gernios brancos.
Mas o grande trabalho, mesmo, fora organizar os arquivos de Samuel, no microcomputador. Catherine encontrara duas caixas de disquetes novos, na estante. E resolvera copiar os arquivos principais. Essa medida de segurana bem podia evitar futuros aborrecimentos.
Assim, se o microcomputador algum dia apresentasse problemas srios, e os arquivos se perdessem, Samuel teria uma cpia deles.
Catherine terminou de tomar seu copo de gua e levantou-se para olhar Theo, que dormia serenamente, no bercinho, perto de cama.
 Meu anjo...  ela sussurrou, enternecida, ajeitando o cobertorzinho sobre o beb.
Uma ponta de remorso a invadiu. E Catherine recriminou-se duramente.
Havia se aproximado de Samuel Winston com uma determinao muito clara: convenc-lo a assumir a paternidade de Theo... A qualquer preo. Entretanto, estava se desviando do objetivo. E isso no podia, de modo algum, acontecer.
O pior era que, nos ltimos dias, havia tido um contato profundo com o mundo de Samuel. Lera seus livros e anotaes para novas histrias. Assim, acabara compreendendo parte de seu processo criativo. No era  toa que Samuel havia alcanado sucesso, com sua obra. Suas histrias eram alegres, dinmicas e divertidas. Ele parecia entender, a fundo, o mundo ldico das crianas.
Quando chegara quela casa, uma semana atrs, Catherine tambm tinha um outro plano, em mente. Estava certa de que Samuel roubara certas idias de Helenna, a respeito do personagem de seus ltimos livros, o companheiro do Ursinho Jimmy.
Agora, porm, ela j no acreditava nisso. Samuel era talentoso e criativo demais, para apossar-se de idias alheias.
Felizmente ele s estaria de volta dali a vrios dias, Catherine pensou, voltando a deitar-se.
Esse prazo seria suficiente para que ela conclusse o trabalho para o qual fora contratada, conversasse francamente com Samuel e, depois, partisse.
Catherine passou a mo pelos cabelos ruivos, num gesto de tristeza e cansao. O trabalho no a assustava. Mas a conversa que teria com Samuel prometia ser difcil. O futuro de Theo estava em jogo.
Se ela conseguisse que Samuel assumisse a paternidade do beb, se sentiria plenamente realizada. Teria cumprido seu objetivo.
Mas e se Samuel reagisse mal? E se a tratasse com a mesma rudeza que tratara Helenna?
Catherine no hesitaria em lev-lo a um tribunal de justia, para exigir um exame de DNA. Mas isso custaria um grande desgaste e sofrimento.
Ela fechou os olhos, por um instante. Detestava admitir, mas o fato era que, naqueles poucos dias, sentia-se muito prxima de Samuel... A tal ponto, que a idia de confrontar-se com ele a desagradava profundamente.
"Tomara que possamos nos entender", ela pensou, aconchegando-se sob as cobertas. "Tomara que no seja preciso recorrer  Justia, para que Samuel faa o que deve fazer. Assim, ser melhor para todos ns." L fora, o co Dougal latiu fortemente. Catherine virou-se para um lado e tentou dormir. O relgio de cabeceira marcava duas e vinte da madrugada. Dougal latiu novamente.
Uma brisa fria atravessou a veneziana, fazendo balanar a cortina.
"Parece que enfim teremos chuva", Catherine concluiu, virando-se novamente, buscando uma posio cmoda. "Estamos mesmo precisando."
Mas o vero era a estao dos extremos. Como conseqncia do sol inclemente dos dias, as chuvas eram demasiado fortes. s vezes armavam-se terrveis temporais. E era isso, exatamente, que estava acontecendo naquele instante.
O som de um trovo, ao longe, alertou Catherine da tempestade iminente.
Levantando-se, ela fechou as vidraas da janela, para evitar que a gua entrasse no quarto, atravs das venezianas.
Aproximando-se de uma seteira de vidros multi-coloridos, Catherine viu um raio riscar o cu.  Minha nossa!  exclamou, estremecendo. Sempre tivera um certo temor de tempestades. E o fato de estar sozinha, naquela casa imensa, com o pequeno Theo, parecia-lhe assustador.
Claro que nada de mal poderia acontecer, racionalmente falando. Mas e quanto quele medo inexplicvel que sempre a perseguira, desde a infncia?
Os raios e troves se sucediam. E Theo no tardou a acordar.
 Est tudo bem, querido.  Catherine tomou-o nos braos.
Mas o beb, assustado com o barulho dos troves, chorava desconsoladamente.
Cobrindo-o com uma manta, ela o embalou-o por um bom tempo. Mas sabia que Theo no voltaria a dormir, enquanto no cessassem os rudos da tempestade.
Inquieta demais para permanecer no quarto, Catherine desceu at a sala e acendeu as luminrias que, dispostas ao longo das paredes, lanavam uma iluminao agradvel e tnue no ambiente.
Sentou-se numa poltrona e comeou a cantar, baixinho, para Theo. Sempre fazia isso, quando queria acalm-lo.
De sbito, ouviu um barulho que a fez levantar-se de um salto.
Lutando para no ceder ao pnico, levou alguns segundos para compreender do que se tratava: assustado com a tempestade, Dougal gania e arranhava a porta da casa. Era bvio que j havia percebido que ela estava na sala e pedia um pouco de aconchego.
 V para sua casinha, amigo!  ela ordenou, com a boca colada  porta, para fazer-se ouvir.
O efeito foi totalmente contrrio: o cachorro comeou a latir e a ganir ainda mais alto, demonstrando toda sua aflio.
Compadecida, Catherine resolveu deix-lo entrar.
Podia muito bem imaginar como Dougal estava se sentindo, exposto quela terrvel tempestade. Era verdade que ele bem poderia se refugiar em sua casinha de tijolos. Mas parecia preferir a companhia dos humanos, Catherine pensou, enquanto colocava Theo sobre uma esteira que havia a um canto da sala. Cercando-o com almofadas, Catherine recomendou:
 Espere-me um minutinho, sim? Vou ajudar um amigo em apuros.
O beb desatou a chorar. Mas Catherine no podia mant-lo no colo. Naquele canto, ele estaria protegido contra o vento que sem dvida varreria a sala, quando Catherine abrisse a porta.
  E s por um momento, meu anjo  ela disse a Theo, enquanto se aproximava da porta.
O beb chorava muito alto. Os troves continuavam a soar, l fora, na noite chuvosa. Dougal gania, desesperado. E Catherine perguntava-se o que mais poderia acontecer...
Quando abriu a porta, deparou com um Dougal encharcado e trmulo. Afagou-lhe a cabea e ele abanou a cauda, em sinal de agradecimento. Entrou na sala, deitou-se num tapete prximo a uma estante, e ali ficou, encolhido como um filhotinho assustado, a despeito de seu enorme tamanho.
Theo continuava a chorar. Mas ainda teria de esperar um pouquinho pela ateno de Catherine, que correu at a despensa, pegou um pano de limpeza e enxugou Dougal vigorosamente.
O grande co fitou-a, agradecido.
 Bem, parece que voc j est devidamente acomodado  disse Catherine, afastando-se para lavar as mos.
Quando voltou  sala, deparou com uma cena comovente: Dougal estava sentado ao lado de Theo, que com o rostinho ainda banhado de lgrimas fitava-o atentamente.
Catherine sorriu e aproximou-se.  Parece que teremos de nos apoiar, nessa hora difcil...  Pegando Theo no colo, sentou-se numa grande almofada. Dougal deitou-se ali perto, descansando a cabea sobre as patas dianteiras. A tempestade comeava a amainar. Ou era ela quem estava mais calma?, Catherine perguntou-se, acomodando-se melhor, na esteira.
Meia hora se passou. Os raios e troves soavam mais distantes. A forte ventania havia levado as nuvens carregadas de chuva para outro lugar.
Talvez fosse mais prudente voltar para a cama, Catherine pensou. Mas ela e Theo estavam to confortveis, ali. E ainda por cima contavam com a companhia do velho Dougal... Theo parecia sonolento.
Com movimentos delicados, para no sobressalt-lo, Catherine improvisou uma pequena cama, com as almofadas. Esperou que o beb adormecesse totalmente e acomodou-o a seu lado. Ento sentiu os olhos pesados e pensou que no faria mal se cochilasse um pouquinho... S um pouquinho, antes de voltar para o quarto.
Samuel caminhava pela estrada de cascalho que conduzia  propriedade. Decididamente, no estava num momento de sorte.
O avio no qual viera havia tido problemas para aterrissar em Melbourne, devido  forte tempestade que caa.
Samuel havia deixado seu carro no estacionamento do aeroporto. A caminho de casa, porm, o veculo enguiara. E Samuel havia feito o resto do trajeto a p, sob a chuva fina e incmoda.
Para piorar ainda mais a situao, Samuel havia esquecido o chaveiro no porta-luvas do carro. S se deu conta disso quando j estava bem perto do porto de entrada da propriedade. Assim, teve de voltar sobre os prprios passos, para peg-las. Pois no queria acordar Catherine, quela hora da noite... Embora fosse bem provvel que ela houvesse despertado, com a tempestade.
Agora, porm, que a chuva caa bem mais amena, Catherine devia ter voltado a dormir. E por nada no mundo ele a perturbaria.
Era nisso que Samuel pensava, enquanto caminhava pela estrada de cascalho que conduzia  casa.
Onde estaria Dougal?, perguntou-se.
Com um sorriso, lembrou-se do pnico que o grande co sentia, durante tempestades.
Certamente Dougal estava encolhido, em sua casa, assustado demais para recepcion-lo, ele concluiu.
Porm, quando Samuel pisou na varanda, ouviu dois latidos alegres... Que pareciam vir do interior da casa. Ou seria apenas impresso, ele se perguntou, girando a chave na fechadura.
Assim que abriu a porta, ganhou uma calorosa recepo de Dougal, que colocou-lhe as patas dianteiras nos ombros e encostou a grande a cabea em seu peito.
  O que est fazendo aqui dentro, amigo?  S ento Samuel reparou em Catherine e Theo, que dormiam a um canto, na esteira, sobre as almofadas.
 Ora...  sussurrou baixinho, comovido diante da beleza daquela cena.
Deitada de lado, com a longa cabeleira ruiva espalhando-se sobre uma almofada verde-musgo, Catherine dormia serenamente. A seu lado, o beb, tambm adormecido, tinha uma expresso de total placidez. A mo esguia de Catherine segurava, docemente, a mozinha minscula de Theo.
Samuel fechou os olhos por um instante, fotografando na memria e no corao aquele quadro inesquecvel. E, para complet-lo, Dougal voltou a seu lugar, perto da esteira. Espreguiou-se e deitou, pronto para retomar o sono.
A palavra famlia delineou-se na mente de Samuel. Era disso que ele sentia falta: de possuir uma verdadeira famlia. De chegar em casa e encontrar algum mais a sua espera, alm do velho companheiro Dougal.
Samuel no saberia dizer por quanto tempo ficou ali, parado, contemplando aquele quadro de incom-parvel simplicidade e beleza.
A certa altura, Catherine remexeu-se e murmurou algo. Em seguida esticou-se, com a languidez de uma gata, e deitou-se de costas.
Ento, um novo sentimento juntou-se  profunda emoo que dominava Samuel...
Catherine usava uma camisola de malha azul-clara, muito delicada e fina. O decote, um tanto ousado, revelava-lhe parte dos seios pequenos e firmes. E como a camisola era curta, deixava-lhe tambm as pernas  mostra.
"Pernas esguias, bem torneadas. Seios firmes, apesar da maternidade. E um corpo escultural, que parecia feito especialmente para ser amado", Samuel pensou, tomado por um misto de ternura e desejo. Era difcil, quase impossvel conter o impulso de tomar Catherine nos braos e am-la longamente, ali mesmo.
Samuel riu de si mesmo e daquele pensamento absurdo. Catherine no simpatizava com ele, essa era a verdade. Isso estava mais do que evidente, em todas as suas atitudes, olhares e gestos.
Em contrapartida, ele nunca se sentira to fascinado por uma mulher, como agora.
De sbito, Samuel pensou em Christine. Havia se apaixonado por ela, praticamente  primeira vista.
A diferena era que Christine correspondera a seus sentimentos... Ao menos no incio, antes que o mundo de ambos desmoronasse.
Samuel meneou a cabea, num brusco sinal de negao.
A possibilidade de Catherine apaixonar-se por ele era to remota quanto a lua, que as nuvens de chuva haviam ocultado, no cu. Mas se isso por ventura acontecesse, ele desejava, ardentemente, que essa relao no terminasse de modo to triste como seu casamento com Christine.
Samuel tinha certeza de que no resistiria a uma segunda desiluso. Por mais forte que fosse, no mais conseguiria se recuperar.
"J chega de divagaes", ele se ordenou, em pensamento.
Estava encharcado, ansioso por um banho quente e faminto. O melhor que tinha a fazer era retirar-se para sua sute e descansar, em vez de ficar ali, parado, acalentando sonhos impossveis.
Deveria acordar Catherine e colocar Dougal para fora?, perguntou-se. Mas precisou de apenas um instante para se decidir:
 No  disse, baixinho.
Seria um pecado fazer isso. Alm do mais, faltava pouco para amanhecer.
Samuel tomou uma ducha rpida e, sentindo-se totalmente revigorado, pensou em dormir imediatamente. Mas a fome ainda o perturbava.
Assim, ele vestiu um roupo branco e decidiu ir at a cozinha, para saborear um copo de leite e, talvez, um sanduche.
Desceu as escadas, tomando todo o cuidado para no fazer barulho. Estava transpondo o ltimo degrau, quando ouviu uma voz trmula indagar:
 Samuel Winston, voc quer me matar do corao? Voltando-se, ele deparou com Catherine, muito plida. Apoiada  parede, ela parecia prestes a desmaiar.
 O que houve?  Samuel apressou-se a ampar-la.
  Voc ainda pergunta?  a voz de Catherine soava baixa, mas carregada de indignao.  Eu j estava achando que se tratasse de um assalto!
 Assalto?  Samuel repetiu, sem entender.
 Claro! Voc me aparece no meio da noite, sem avisar, e quer que eu pense o qu? Acordei com o som de passos no corredor de cima. Dougal no latiu e...  interrompendo-se, Catherine lanou um olhar na direo do co.  Ora, eu devia ter imaginado que era voc. S mesmo assim, para que Dougal no se alarmasse.
 Cheguei agora h pouco e a encontrei dormindo, junto com Theo.  Samuel explicou, em poucas palavras, o que havia acontecido: o atraso do vo, a dificuldade para aterrissar, seu carro que enguiara a pouca distncia da propriedade, a caminhada sob a chuva fina, at descobrir que havia se esquecido das chaves. E concluiu:  Como voc pode ver, foi uma verdadeira epopia chegar at aqui.
  Suponho que esteja exausto.
  E faminto. Estou indo at a cozinha, para fazer um lanche.
Catherine fitou-o com estranheza. Parecia mais calma, agora.
  Mas voc no deveria chegar somente daqui a alguns dias?
  Sim, mas houve uma mudana de planos.
  Certo.
O silncio caiu entre ambos. A chuva havia praticamente parado. Theo dormia e Dougal tambm.
Catherine de repente deu-se conta de que estava usando apenas uma camisola curta. E isso a deixava totalmente exposta a Samuel.
Esse pensamento causou-lhe tamanho embarao, que ela sentiu-se enrubescer.
S ento Catherine constatou que a situao era ainda pior... Pois Samuel, ao que tudo indicava, no estava usando nada sob o roupo atoalhado.
 Vou para o quarto  ela decidiu, ansiosa por fugir daquela circunstncia constrangedora.
 Por que no me acompanha, num lanche?  Samuel convidou.
   No posso  ela respondeu, traindo uma forte ansiedade.
  Por que no? Parece que ns dois tivemos uma noite difcil. No acha que merecemos nos refazer desse desgaste? Afinal, daqui a pouco j ser hora do caf...
Catherine fitou aqueles olhos, azuis como safiras preciosas. Sabia que deveria recusar. Entretanto, ouviu-se dizer:
  Est bem. Mas d-me um minuto para colocar Theo no bero.
  Certo. Estarei a sua espera, na cozinha. Samuel ainda sentiu vontade de acrescentar: "No demore, por favor."
Mas achou que seria excessivo. Era possvel at que Catherine se irritasse e desistisse de acompanh-lo no lanche.



CAPTULO VIII


Samuel andava de um lado a outro da cozinha, perguntando-se porque Catherine estaria demorando tanto. Teria desistido de vir?, perguntou-se, lanando um olhar ansioso para a mesa. Ao centro, estava a jarra de leite batido com cereais, que ele tinha acabado de preparar. Numa pequena bandeja, havia biscoitos salgados, torradas e gelia.
Catherine surgiu  porta da cozinha, usando jeans e uma camiseta justa, de um suave tom rosa-plido. Sentia-se melhor assim.
  Perdoe-me a demora  ela se desculpou.  Mas Theo acordou, no momento em que eu o colocava no bero. Da, tive de faz-lo dormir novamente.
Catherine preferiu no dizer que havia levado algum tempo parada diante do guarda-roupa, perguntando-se o que deveria vestir, para o lanche com Samuel. Acabara optando pelo estilo de sempre. Afinal, no queria que Samuel tivesse a impresso de que ela havia se aprontado, com esmero, para v-lo.
  Sente-se  ele convidou, apontando para a mesa.
  Obrigada.
  Posso servi-la?
  Por favor.
Por alguns momentos, ambos saborearam o lanche em silncio. Por fim, Catherine comentou:
  Est muito saboroso.
Samuel assentiu com um sorriso, antes de indagar:
  E ento? Como vo as coisas, por aqui? Catherine discorreu, em detalhes, sobre o trabalho que estava fazendo no escritrio.
Samuel ouviu-a com ateno e no final comentou:
  Pelo visto, voc conseguiu fazer um milagre.
 Ainda no terminei  ela afirmou, servindo-se de um biscoito.  Mas, modstia  parte, acho que estou realizando um bom trabalho.
  Quanto a isso, no tenho a menor dvida.  Inclinando-se na direo de Catherine, ele pediu:  Agora, fale-me um pouco de voc.
 Oh, no h muito a dizer. Estou tentando manter a casa bem-arrumada, mas s consigo fazer o necessrio, j que a prioridade  o trabalho de organizao, no escritrio. Alm do mais, preciso cuidar de Theo e Dougal.
  Claro. Mas, conte-me, como est se sentindo, nesta casa to grande?
  s vezes, um pouco solitria.
  Foi muito difcil de se acostumar?
  Nas primeiras noites, sim. A gente sempre estranha os lugares novos, no  mesmo?
Samuel concordou, com um gesto de cabea, antes de comentar:
 Acho que sou uma exceo, nessa regra. Em geral, no estranho muitos os lugares novos. Mas isso se deve a meu trabalho de escritor, que sempre me leva a viajar para divulgar meus livros, dar palestras e tardes de autgrafos, participar de encontros, enfim... Uma srie de compromissos.
  Compreendo. Mas suponho que voc goste do que faz, no?
  Adoro. Eu no saberia viver de outro modo, sabe? Para ser franco, sinto-me privilegiado.
  Por qu?
 Porque h muitos artistas, por a, que so obrigados a desempenhar outras funes, para sobreviver. Poucos podem viver de seu trabalho.
 E verdade.  E Catherine recordou-se da irm, Helenna, que adorava desenhar e pintar. Mas muitas vezes precisava arranjar empregos temporrios, que nada tinham a ver com sua arte, para se sustentar. Afastando essa lembrana triste, ela perguntou a Samuel:  E ento, como foi a turn?
Ele contou sobre os principais acontecimentos da viagem. Mencionou, inclusive, o reencontro de Sheylla e Jonathan.
Catherine sorriu, com melancolia, antes de comentar:
 Quando dois coraes que se amam se reencontram, o mundo fica melhor.
 Penso do mesmo modo  Samuel afirmou, com uma ponta de tristeza.  Infelizmente, no tive muita sorte no amor.
Catherine fitou-o, com genuno interesse. Mas preferiu no fazer perguntas.
 E voc, pelo visto, tambm acabou se magoando com o pai de Theo...
 Mas no posso reclamar de falta de amor  ela sentenciou, desviando os olhos.  Venho de uma famlia um tanto louca, mas que me ama infinitamente.
Samuel sorriu, ao indagar:
 O que significa... "um tanto louca?" Ela sorriu de volta e respondeu:
   s um modo de falar. Minha me foi hippie, no final dos anos sessenta. Possui um grande corao, mas no  nada prtica. Talvez por isso tenha se dado to mal com meu pai, que  a sensatez e organizao em pessoa...
  Eles vivem aqui mesmo, na Austrlia?
  Eles se separaram pouco depois de eu completar dois anos.
  Que pena.
 Talvez...  Catherine suspirou.  Mas j que no se davam muito bem, isso  o melhor que tinham a fazer. Claro que, na poca, sofri muito com a falta de papai. Nem me lembrava dele direito, mas  bvio que isso me marcou profundamente.
  E voc continuou mantendo contato com ele?
  S quando me tornei adulta. Mesmo assim, no tivemos uma boa relao. Ele acabou partindo da Austrlia e nunca mandou notcias.  Catherine fez uma pausa.  Sabe de uma coisa? Acho que mame, com sua maneira um tanto atrapalhada de ser, possui um corao muito maior que o dele.
  E vocs duas se do bem?
  Sim. Mas, infelizmente, no nos vemos com muita freqncia.
  Ela mora em outra cidade?
 Em outro pas. Ou melhor: em vrios pases, pois vive viajando com Gregory, que alis tem uma profisso adorvel:  arquelogo. Mame, que tem alma de cigana, encontrou um par perfeito. Ela costuma secretariar Gregory, nas pesquisas arqueolgicas.
  E onde eles se encontram, agora?
 Em Machu Pichu, no Peru. Estiveram aqui h cinco meses, para visitar Helenna.  Mal havia acabado de pronunciar essa frase, Catherine deu-se conta de que tinha falado demais.
O fato era que havia baixado totalmente as reservas, perante Samuel Winston. Estava, de novo, traindo o objetivo que a levara at aquele homem. Mas agora era tarde para reparar o erro.
  Quem  Helenna?  ele indagou.
  Minha meio-irm, filha de mame com Gregory.
  E ela esteve doente?
  Ela faleceu.
  Oh.  Samuel murmurou, penalizado.  Sinto muito.
  Eu tambm. Mas agora no me resta outra alternativa, seno seguir adiante... E honrar a memria de Helenna.
  Era sua nica irm?
 Sim. E tnhamos uma grande amizade. Quando ela se foi, levou uma parte de mim.
O silncio caiu entre ambos, como uma cortina densa e pesada. Catherine perguntou-se se teria chegado o momento de revelar a verdade a Samuel. Mas sentia-se to frgil, que preferia deixar aquela conversa difcil para uma outra hora.
Estaria sendo covarde?, perguntou-se.
J no havia esperado demais?
  Certa vez, conheci uma Helenna...
As palavras de Samuel a fizeram estremecer.
  Sim?  Foi tudo o que Catherine pde balbuciar.
 Achei que amos nos tornar bons amigos. Mas as coisas tomaram um rumo bem diferente.
 Como assim?  Catherine indagou, com a respirao suspensa.
   Acabamos nos envolvendo emocionalmente. Acho que ambos estvamos carentes. Foi na poca em que me divorciei. E Helenna me ofereceu um ombro amigo...
"Da voc se apossou de todo o resto", Catherine pensou, com um misto de revolta e amargura.
 Tivemos alguns encontros  Samuel prosseguiu.  E depois...
Catherine engoliu em seco.
 Depois?  perguntou, j que Samuel no havia completado a frase.  O que houve?
  Ela me traiu.
  O qu?  Catherine indagou, perplexa.
  Acho que no me expliquei bem.  Samuel recostou-se na cadeira.  Helenna traiu nossa amizade, entende?
 No  Catherine respondeu, secamente.  Alm do mais, pelo que pude perceber, vocs eram mais do que amigos.
 Mas creio que nunca nos enganamos, realmente. Sabamos, mesmo quando compartilhamos nossa intimidade, que tratava-se apenas de uma circunstncia.
Estreitando os olhos, Catherine procurou, no rosto de Samuel, algum indcio de cinismo, ou crueldade. Mas s encontrou franqueza. A menos que ele fosse um timo ator, ou um monstro sem sentimentos, ela pensou.
De uma coisa, porm, tinha certeza: Samuel ignorava que Helenna fora apaixonada por ele.
 Por que acha que ela traiu a amizade de vocs?  Catherine perguntou, por fim.
  Porque mentiu para mim.
  Como?
  Inventou uma estria mirabolante e isso me magoou muito, sabe?
  Que tipo de estria?
Mas Samuel parecia no ouvi-la. Meneando a cabea, comentou, como se pensasse em voz alta:
 J conheci mulheres oportunistas. Mas nunca pensei que Helenna pudesse ser uma delas.
Catherine levantou-se, de um salto. Um golpe em pleno estmago no a teria deixado to furiosa.
  O que o fez pensar que aquela pobre moa fosse interesseira?
Samuel tambm ergueu-se, com uma expresso de perplexidade no rosto de traos perfeitos. No compreendia a reao de Catherine.
 Por que est to indignada?  perguntou, ao fim de alguns momentos.
 Porque, tal como voc conhece mulheres oportunistas, tambm conheo homens inescrupulosos, que se aproveitam de garotas ingnuas e...
 Acho que j entendi  Samuel a interrompeu, num tom compreensivo.  Essa histria a fez lembrar-se do pai de Theo, no?
Apoiando-se na borda da mesa Catherine fechou os olhos por um instante. Se aquele homem pudesse ao menos desconfiar do quanto estava prximo da verdade...
  Sei que existem homens que engravidam garotas e depois se recusam a assumir a paternidade do beb. Mas este, sinceramente, no foi o caso.
  Como no?  Catherine o desafiava, com uma expresso de revolta.  Voc no engravidou Helenna?
  Nunca.
  Como pode ter tanta certeza?
 Por dois motivos...  Samuel cruzou os braos sobre o peito moreno, que o roupo entreaberto deixava  mostra.  O primeiro  que sempre usei preservativos, nas poucas vezes em que tive relaes com ela...
 Voc sabia que os preservativos podem se romper, durante a relao? Isso parece folclore, parece desculpa, mas no .
Samuel voltou a fit-la com perplexidade. Ento, num tom suave, props:
 Que tal se mudssemos de assunto? Esta conversa a est deixando muito tensa. Alis, nem sei porque falei de Helenna...
 Talvez porque ela tenha sido uma pessoa importante, para voc.
  Ela me decepcionou muito porque...
  Ficou grvida?  Catherine completou.
  No  Samuel respondeu, impaciente.  J lhe disse porque: ela mentiu para mim. Quantas vezes terei de repetir?
  Como pode estar to certo disso?
 Pelo segundo motivo que eu ia mencionar, mas voc no deixou.
Aproximando-se, Catherine fitou-o no fundo dos olhos, para indagar:
  Diga-me, Samuel Winston, qual  o segundo motivo?
  Sou estril.
 O qu?  Catherine recuou um passo. Poderia esperar qualquer resposta de Samuel, menos aquela.
  No posso gerar filhos.
  No  possvel  ela murmurou, como se para si.  Isso no pode ser verdade.
 Eu tambm gostaria que no fosse. Mas, infelizmente, no resta a menor dvida a esse respeito.
  No pode ser  Catherine repetiu, num tom quase inaudvel.
Samuel fitou-a com preocupao.
 Voc est muito plida. Venha tomar um pouco de ar.
Catherine quis protestar, mas no teve foras para tanto.
Gentilmente, Samuel conduziu-a at a sala. Amparando-a, abriu a porta e levou-a at a varanda.
 Sente-se.  Ele ajudou-a a acomodar-se numa cadeira.  Vou buscar-lhe um copo de gua.
  No  preciso  ela respondeu, num fio de voz.
  E, sim.
A movimentao despertou Dougal, que dormia na sala. Muito alegre, o co foi at a varanda e fez festas para ambos.
  Dougal, fique aqui com Catherine, enquanto vou pegar um copo de gua.  Samuel apontou um ponto, ao lado da cadeira onde ela estava sentada.
O co, entendendo claramente o gesto, obedeceu. A passos largos, Samuel foi at a cozinha e voltou em seguida.
Dougal continuava sentado perto de Catherine, que parecia muito distante dali. Seus olhos verdes e luminosos tinham uma expresso de infinita tristeza.
 Tome em pequenos goles  Samuel recomendou, oferecendo-lhe o copo de gua.  Isso a ajudar a sentir-se melhor.
Ela obedeceu. Devagar, sorveu boa parte do lquido e ento devolveu o copo a Samuel.
 Oh, Deus, voc est tremendo  ele constatou, penalizado. Deixou o copo sobre o peitoril de uma janela e voltou a observar Catherine, que entregava-se a um pranto silencioso. As lgrimas deixavam-lhe um rastro luminoso no rosto de traos delicados.
Samuel comeava a se desesperar. Sempre se sentia assim, quando via algum chorar. Mas Catherine causava-lhe ainda mais pena.
 No fique assim  ele pediu, baixinho, puxando-a para si. Aconchegou-a de encontro ao peito, numa tentativa de consol-la.  Se eu soubesse que ia deix-la abalada desse jeito, jamais teria mencionado o nome de Helenna...
Catherine soluou alto. E ele acariciou-lhe os cabelos ruivos, ternamente.
  Foi o pai de Theo quem lhe causou toda essa mgoa, no  mesmo?
Aquilo era demais. Catherine estremeceu, sacudida por uma nova crise de choro.
Dizendo-lhe palavras doces, Samuel tentava consol-la. Por fim, murmurou:
 Chore, minha querida, d vazo a toda essa revolta. Assim, quem sabe, seu corao ficar aliviado...
Catherine j no o ouvia. O sofrimento ocupava-lhe a mente e o corao.
Amanhecia, em Melbourne. Os pssaros cantavam, como se saudassem a me-natureza.
A chuva da noite anterior deixara as folhagens brilhantes. Da terra, exalava um aroma agradvel.
Era verdade que a ventania havia derrubado alguns galhos de rvores, e despetalado as flores mais frgeis. Mesmo assim, as plantas pareciam gratas  gua que viera do cu, alimentando-as e dando continuidade a seu ciclo de vida.
Catherine no saberia dizer por quanto tempo chorou, aconchegada contra aquele peito quente, que parecia proteg-la de todos os males do mundo.
J Samuel no tinha idia de quando o sentimento de ternura e proteo havia se transformado em desejo. Talvez isso houvesse ocorrido no momento em que Catherine tinha parado de chorar... E, entretanto, continuara ali, junto dele.
Baixando os olhos, Samuel contemplou a cabeleira ruiva de Catherine, que contrastava com o tom bronzeado de seu peito e a cor branca do roupo que ele usava.
Obedecendo a um impulso irresistvel, abraou-a com fora. E ento sentiu-lhe os seios pequenos e firmes, os quadris colados aos seus.
O desejo agora o incendiava, com uma fora poderosa,  qual era impossvel resistir.
Seu corao saltava no peito, tamanha era a intensidade daquela emoo.
Samuel ergueu o rosto de Catherine e fitou-a no fundo dos olhos verdes. Seria impresso, ou ela tambm estava prisioneira do desejo?, Samuel perguntou-se, enquanto aproximava a boca, lentamente, da de Catherine.
A princpio o beijo foi leve, apenas um rpido toque de lbios. Mas aos poucos foi se transformando num contato mais ousado e ardente. As lnguas se buscavam, vidas, enviando mensagens que nenhuma palavra poderia traduzir. Os corpos se aproximavam ainda mais, como se quisessem fundir-se num s.
O tempo j no importava. O mundo resumia-se naquele momento sublime. E nada mais contava. Os beijos se repetiam, com uma intensidade crescente.
Quando por fim as bocas se afastaram, Samuel ainda manteve Catherine junto a si, por um longo momento. E sua voz soou ofegante, ao dizer:
  No me pergunte por que, mas o fato  que necessito de voc como de ar para respirar. Nada disso faz sentido, eu sei. Afinal, mal nos conhecemos. Mas os sentimentos so mais poderosos do que qualquer raciocnio.  Tomando-lhe o rosto entre as mos, concluiu:  Acho que estamos comeando um belo relacionamento, Catherine Glenn. E, dessa vez, juro que seremos felizes. J sofremos demais, no passado... Eu com minha ex-esposa e voc com o pai de Theo. Agora, um novo tempo est surgindo, para ns.  Samuel fez uma pausa. E sorriu, profundamente emocionado.  Santo Deus, como voc  linda.
A expresso doce de Catherine transformou-se lentamente em tristeza, depois em horror e, por fim, em revolta.
Afastando-se bruscamente de Samuel, ela ordenou:
 Nunca mais ouse se aproximar de mim!
Ele piscou os olhos, como se no acreditasse no que estava vendo e ouvindo.
  O que est dizendo?
  Mandei-o ficar bem longe de mim!  ela quase gritou.  Voc no tem o direito de me tocar.
 Catherine...  ele argumentou, atnito  Eu... no a forcei a nada. Alis, nem sabia que isso ia acontecer, embora j estivesse consciente do quanto a desejava.
  Oh, sei muito bem que voc no me forou  ela retrucou, sarcstica.  Fui eu quem se deixou levar por seus encantos, no  mesmo? Voc apenas fez o que deveria, nessas circunstncias...
 No fale assim  Samuel pediu, ofendido.  Tenho muitos defeitos, mas a futilidade no se encontra entre eles. No sou do tipo macho, que se aproveita de qualquer situao para exercer sua suposta masculinidade. Para que eu me aproxime de uma mulher, deve existir algo mais, alm da mera atrao fsica.
  E mesmo?  Catherine estava fora de si.  Foi assim que as coisas aconteceram com Helenna? Voc sentia algo mais por ela, alm de desejo? Mas isso deve ter ocorrido antes de Helenna engravidar, no? Porque depois voc simplesmente a ignorou. At a ofendeu, em sua integridade de mulher.
  Eu apenas disse a ela que no poderia ser o pai da criana  Samuel justificou-se, exasperado. Perdendo o controle, acrescentou:  Mas que droga! J expliquei que no posso gerar filhos. Por que voc est to indignada? Creio que sua revolta deveria dirigir-se ao pai de Theo e no a mim.
  E exatamente o que est acontecendo, Samuel Winston.
  Como?
  Estou dirigindo minha raiva ao pai de Theo, ou seja: voc.
Samuel fitou-a com espanto. Depois meneou a cabea e riu, nervosamente.
  Oh, no. Eu devo estar sonhando.  Deixando-se cair numa cadeira, olhou para Catherine com uma expresso que era a um s tempo confusa e incrdula.  Ns jamais nos vimos antes. Como eu poderia ser pai de seu filho?
  Theo no  meu filho  Catherine revelou, sentando-se em outra cadeira, a uma distncia prudente. E ante o ar de espanto de Samuel, esclareceu:  Ele  filho de Helenna, com quem voc teve um breve caso. E depois que ela ficou grvida, voc, inescrupulosamente, recusou-se a apoi-la.
Samuel passou a mo pelos cabelos negros, num gesto de exasperao e cansao.
  Espere um momento, Catherine Glenn. Voc est tentando me dizer que Helenna...
 Era minha irm  ela completou. Agora, que enfim estava conseguindo cumprir seu objetivo, sentia-se estranhamente calma.  Se entrei em sua vida, Samuel Winston, foi apenas para tentar convenc-lo a assumir a paternidade de seu filho. Mas confesso que, apesar de minha inteno ser muito nobre, os recursos que eu estava disposta a usar no o eram... Em outras palavras, eu seria capaz at de chantage-lo, ou de lev-lo a um tribunal, para obrig-lo a assumir Theo.
Catherine fez uma pausa. E levou alguns momentos para prosseguir:
 Acontece que, nesta semana que passei aqui, tive um profundo contato com seu mundo, Samuel Winston. E, sinceramente, senti-me fraquejar. Voc me pareceu criativo, talentoso e sensvel demais, para ser to inescrupuloso e cruel. Em resumo, fiquei confusa, sem saber ao certo como agir. Agora, estou numa encruzilhada: devo partir desta casa e de sua vida, sem conseguir realizar meu objetivo? Ou devo honrar a memria de Helenna e guerrear com voc, at as ltimas conseqncias?
Samuel a ouvia, de olhos fechados. Seu rosto de traos perfeitos estava contrado pelo sofrimento.
 Fale alguma coisa, por favor  Catherine pediu, ao fim de um longo silncio.
 Sinto-me arrasado  ele declarou, por fim.  Pensei ter encontrado, em voc, a mulher de meus sonhos. E justamente quando estou me apaixonando, descubro que voc mentiu para mim, que s veio at aqui para me prejudicar.
 Isto no  verdade  ela argumentou.  No menti para voc. Tencionava cham-lo para uma conversa sria e expor este assunto to delicado, no momento conveniente.
Ele fitou-a com uma expresso de mgoa.
 Voc fala em delicadeza, Catherine Glenn? Pois onde estava seu senso de delicadeza, quando lhe confessei que era estril, agora h pouco? Por que no considerou esse fato? Por que me acusou, com tanto dio, por um sofrimento que jamais causei a sua irm?
  Ora, pelo amor de Deus, Samuel Winston!  ela explodiu.  De onde voc tirou a absurda idia de que  estril?
 De vrios exames mdicos, que fiz com minha ex-esposa, na poca em que ela quis engravidar.
  Ento, algum milagre deve ter acontecido  Catherine comentou, entre amargurada e irnica.  Pois basta olhar para voc e Theo, para perceber o quanto so parecidos. S para comear, os dois tm cabelos negros e olhos azuis, sabia?
 Isso pode ser mera coincidncia. A maioria dos bebs possuem olhos claros. J pensou nesse aspecto da questo?
Catherine ficou em silncio por alguns instantes. Ento perguntou:
 Voc alguma vez disse a Helenna que era estril?
  No.
  Por qu?
  Porque eu estava arrasado, emocionalmente, na poca. Tinha me divorciado e sabia que, de algum modo, essa esterilidade estava relacionada ao fim de meu casamento. Em outras palavras, senti vergonha de contar isso a Helenna.  Num tom amargo, ele acrescentou:  Est satisfeita, agora?
Pela primeira vez, desde que havia iniciado aquela discusso acirrada, Catherine sentiu seu corao abrandar-se. Samuel parecia sofrer terrivelmente e isso ela no podia ignorar.
  Algum mentiu, nessa estria  concluiu, pensativa.
  Eu sei. E esse algum foi Helenna.
 Ser?  Catherine argumentou, irredutvel em sua convico.  Tenho certeza absoluta de que Theo  seu filho. E no estou dizendo isso apenas porque vocs tm cabelos e olhos da mesma cor. Trata-se de outra coisa...
  O qu?
 Intuio. E tambm a certeza de que Helenna no era uma pessoa mentirosa.
  Eu pensava assim, at o dia em que ela veio me dizer que esperava um filho nosso.
  Ela jamais faria isso. Helenna era a pessoa mais sincera deste mundo. E ainda que, por algum motivo inexplicvel, houvesse mentido para voc, no teria coragem de fazer o mesmo comigo.
 Mas fez.  Samuel levantou-se.  E agora, se no se importa, gostaria de encerrar esta conversa absurda.
  Posso fazer uma ltima pergunta?
  Diga, Catherine  ele aquiesceu, com um suspiro.
 Voc concordaria em fazer um exame de DNA? 
As feies de Samuel endureceram-se. E sua voz soou velada, ao dizer:
 Voc certamente no pode imaginar o quanto eu ficaria feliz, se pudesse reverter a realidade... Se descobrisse ser pai de Theo, eu o acolheria com todo o amor. Alis, mesmo ignorando essa estria, senti-me profundamente ligado a Theo. At lhe disse, baixinho, que ele era o filho que eu queria ter, se pudesse.
Estalando os dedos, Catherine ergueu-se de um salto.
 Acabo de pensar numa outra possibilidade!  exclamou, com um olhar cheio de esperana.
  Qual?
  A de sua esposa ter mentido.
  O qu?
 E se ela fosse estril, em vez de voc? E se resolveu ocultar essa verdade, por uma questo de orgulho, ou sabe Deus do que mais? Se foi este o caso, ento est tudo explicado: a gravidez de Helenna, sua recusa em assumir o filho e o terrvel mal-entendido do qual nem voc nem ela foram culpados.
Samuel passou a mo pelo rosto vincado pelo sofrimento. Considerou as palavras de Catherine e por fim meneou a cabea, com ar de desalento. Mas, quando a fitou, foi com total indignao:
  Catherine Glenn, voc se insinuou em minha vida, ocultando sua identidade. Inventou uma estria absurda sobre sua irm e, agora, quer que eu duvide da palavra de minha ex-esposa.  Estreitando os olhos, ordenou:  Faa-me um favor, sim? Desaparea daqui o mais depressa que puder, levando sua amargura e suas mentiras. Deixe o nmero de sua conta, no banco, sobre a mesa do escritrio, para que eu possa depositar o dinheiro que lhe devo.
  Samuel, por favor...
 Vou lhe pagar o preo total que combinamos, j que estou rompendo nosso contrato. Aproveite parte desse dinheiro para pagar um analista, est bem? Faa isso por Theo, para que ele no seja criado por uma mulher que odeia os homens. E que, em nome desse dio,  capaz de qualquer coisa.
Catherine estava lvida. Mas ainda conseguiu foras para dizer:
- Se voc tem tanta certeza do que est dizendo, por que se recusa a fazer o exame de DNA?
Samuel estreitou os olhos azuis. E sua voz soou trmula, ao ordenar:
 Entre em contato com meu advogado. Informe-o do dia e horrio do exame. Deixarei o telefone dele com a srta. Miranda Gladson.  E, sem mais uma palavra, entrou em casa.
Catherine voltou a sentar-se. O cachorro Dougal aproximou-se e ela o acariciou tristemente.
  Consegui realizar meu objetivo, amigo. Mas, estranhamente, no me sinto nem um pouco feliz.



CAPTULO IX


Ese ela fosse estril, em vez de voc? E se resolveu ocultar-lhe essa verdade, por uma questo de orgulho, ou sabe Deus do que mais? Se foi este o caso, ento est tudo explicado: a gravidez de Helenna, sua recusa em assumir o filho e o terrvel mal-entendido do qual nem voc nem ela foram culpados."
As palavras de Catherine no saam da mente de Samuel.
J fazia trs dias que ela havia partido, com Theo, deixando um grande vazio em sua vida.
At mesmo Dougal estava sentindo a falta de ambos. Encolhido a um canto da varanda, recusava-se a brincar e mal tocava na rao.
 Ao menos voc pode se entregar  tristeza, amigo  disse Samuel, afagando-o.  Quanto a mim, nem tenho o direito de me dar a esse luxo. Se soubesse o quanto me esforcei, ontem  noite, para ser gentil com toda aquela gente que, afinal, s queria me homenagear!
De fato, na vspera, Samuel comparecera ao jantar promovido pela Academia de Letras de Melbourne. Era o homenageado da noite e no podia faltar. Mas custara-lhe muito mostrar-se gentil e amvel, quando na verdade queria ficar em casa, encerrado numa total solido, a ss com seus pensamentos e dores.
Para piorar ainda mais as coisas, Catherine havia ocupado seus sonhos, durante boa parte da noite. Samuel tinha despertado em plena madrugada, transpirando muito e sofrendo terrivelmente. Pois a despeito de estar magoado com Catherine, e da deciso de afast-la para sempre de sua vida, continuava apaixonado por ela. O que podia fazer, se seu corao ignorava que aquele amor era to intil quanto impossvel de ser correspondido?
Sentando-se numa cadeira, na varanda, Samuel contemplou a manh radiante de vero. Fora ali que vira Catherine pela ltima vez. Ali, ela o fitara com dio e revolta. Ali ele lhe dissera adeus.
Mas, tambm, o que poderia ter feito? Catherine havia chegado ao absurdo de alegar que Christine mentira, sobre o resultado dos exames.
De sbito, Samuel lembrou-se de que nunca tinha visto os tais exames. Christine apenas o informara do resultado.
Mas isso no vinha ao caso, claro.
Com o decorrer do dia, porm, uma ponta de dvida foi se instalando no ntimo de Samuel.
Incapaz de escrever sequer uma linha, ele andava de um lado a outro da casa, remoendo a mgoa que Catherine lhe causara... Vez por outra, sentia uma vontade tola de ver, com os prprios olhos, o laudo mdico sobre sua esterilidade.
"Que bobagem", repreendia-se, em pensamento. Mas dali a pouco j se perdia, de novo, em tais consideraes.
Ao fim de mais uma noite insone, Samuel decidiu tomar uma atitude.
Catherine havia plantado uma terrvel dvida em seu ntimo. E se ele tinha possibilidade de tir-la a limpo, por que no faz-lo?                  Por mais tolo que isso pudesse parecer, era um direito seu.
Naquela mesma tarde, Samuel resolveu procurar Christine. Pelo que sabia, ela estava casada com o dr. Helmut Lewis. Assim o informava um carto que Christine lhe enviara no ltimo Natal, com uma mensagem da qual ele se recordava:
Estou vivendo muito bem e espero que o mesmo acontea, com voc. Aparea para nos visitar, qualquer dia desses.
Samuel nem pensara em aceitar o convite, j que no tinha a menor inteno de manter contato com ambos. Mas respondera o carto, num tom polido e distante, desejando felicidades  ex-esposa. E estava sendo sincero. Pois j no tinha mgoas de Christine.
Samuel lembrava-se de haver guardado o carto em algum lugar, no escritrio. Teria levado horas para localiz-lo, dias atrs. Mas depois do belo trabalho que Catherine fizera, organizando todos os seus papis, ele sabia exatamente onde procurar: numa pasta que trazia uma etiqueta com a palavra correspondncia.                 
Dentro da pasta, havia outras subdivises. E uma delas indicava: "cartes de Natal". Ali estava o que Christine lhe enviara.
Samuel sentou-se  mesa, pegou o telefone e teclou o nmero ali indicado. Uma voz feminina atendeu, num tom profissionalmente solcito.
  Residncia do dr. Helmut Lewis e senhora...
  Eu gostaria de falar com Christine, por favor  disse Samuel, deixando de lado as formalidades.
  Sinto muito, mas ela est no consultrio. O senhor tem o telefone de l?
  No. Mas se a senhorita puder me informar, ficarei muito agradecido.
  Claro, senhor. Queira anotar, sim?
O que Christine estaria fazendo, no consultrio do marido?, Samuel perguntou-se, depois de desligar. Teria abandonado a carreira jornalstica, para auxili-lo? Era bem pouco provvel. Afinal, ela adorava sua profisso.
De qualquer forma, esse assunto no lhe dizia respeito, Samuel pensou, enquanto ligava para o consultrio.
Foi o prprio Helmut Lewis quem atendeu:
  Consultrio mdico, boa tarde. Dr. Helmut Lewis falando.
  Por favor, eu gostaria de falar com Christine.
  Quem deseja?
  Samuel Winston.
  Ol, como vai, Samuel?
  Bem. E voc, Helmut?
  Levando a vida, como se costuma dizer.
O clima entre ambos era formal e, obviamente, um tanto constrangedor.
 Voc no teve sorte  disse Helmut.  Christine acabou de sair, acho que no faz nem dois minutos. Se quiser o celular dela...
 Sim, por favor.  De sbito, ocorreu uma idia a Samuel: talvez fosse mais interessante falar com Helmut que, afinal, fora o mdico responsvel pelos exames de ambos.
  Queira anotar, sim?
 Acho que no  preciso. Alis, talvez voc seja a pessoa mais indicada para o assunto que tenho a tratar...
 Estou a sua inteira disposio  o outro afirmou. Seria impresso, ou ele parecia um tanto apreensivo?, Samuel perguntou-se.
  Diga-me, Helmut, voc poderia me receber?
  Hoje?
  Sim.
  Espere um momento, por favor. Vou consultar minha agenda.
  Est bem, eu aguardo.
Passaram-se quase cinco minutos. Samuel j estava ficando impaciente, perguntando-se se no estaria cometendo uma grande tolice, quando o mdico voltou a falar.
 Desculpe a demora. O dia hoje est conturbado. Minha secretria faltou, sabe? Christine veio para c, me ajudar. Mas teve de ir at a redao do jornal, agora  tarde.
 Compreendo  Samuel afirmou, num tom polido.  E ento, voc poder me receber?
  Terei meia hora livre, entre quatro e meia e cinco. Voc poderia vir, neste horrio?
Samuel consultou o relgio de pulso. Eram trs e vinte.
  Para mim, est perfeito.
  Ento, ficarei a sua espera. At daqui a pouco, Samuel.
  At...
O consultrio de Helmut Lewis ficava num bairro nobre de Melbourne. Samuel fora at l apenas uma vez, poucos anos atrs, na poca em que Christine ainda queria ter um filho seu.
"Tantas coisas ocorreram, de l para c", Samuel pensava, enquanto estacionava no ptio de um edifcio pequeno e incrivelmente luxuoso, onde s funcionavam consultrios mdicos.
Estava um pouco tenso e no era para menos. Afinal, tinha um assunto constrangedor a tratar com Helmut. Mas, de certa forma, j havia superado esse trauma. E se estava ali, era apenas para tirar a dvida que Catherine Glenn havia incutido em seu ntimo.
Em s conscincia, porm, no duvidava da dura verdade: era um homem estril, jamais poderia gerar filhos e seria melhor resignar-se a esse fato, que nada no mundo poderia mudar.
Helmut recebeu-o tal como fizera, ao telefone: de maneira polida e distante.
Samuel lembrava-se dele como um homem robusto, de traos regulares, muito corado e vigoroso.
Naqueles anos, Helmut havia ganho alguns quilos, perdido uma boa parte dos cabelos e parte do vigor que o caracterizava.
"O tempo passa, para todos ns", Samuel refletiu, agradecendo com um gesto de cabea o convite para sentar-se num sof de couro, na ante-sala do consultrio. "Com certeza Helmut deve estar pensando o mesmo a meu respeito."
Para sua surpresa, porm, o mdico fitou-o com admirao:
 Voc parece ter ficado mais jovem, desde a ltima vez em que nos vimos. A que se deve este milagre? A uma vida feliz?
  Pelo que me recordo, no tive muitos motivos de felicidade, na poca em que nos conhecemos. Ao contrrio...
 Oh, desculpe  Helmut o interrompeu.  Estou falando bobagens, no  mesmo? A verdade  que me sinto um pouco tenso.
  Muito trabalho?  Samuel indagou.
  Sim.  Helmut sentou-se a seu lado.  Mas estou falando, tambm, do fato de estarmos a ss. Isso me deixa um tanto... constrangido, sabe?
Surpreso com tamanha franqueza, Samuel sorriu:
 Obrigado pela sinceridade, Helmut. Isso facilita as coisas, para ns.  Aps uma pausa, indagou:  Como vo voc e Christine?
  Muito bem. Somos felizes, sabe?
  timo. Fao votos que continuem assim.
  Obrigado.
O silncio caiu entre ambos. E Helmut foi o primeiro a quebr-lo.
 A que devo sua visita?
Samuel fitou-o atentamente. Por mais que tentasse, no conseguia ver, em Helmut, um homem feliz. Havia angstia demais, em seus olhos negros.
  Serei claro e direto, Helmut.
  Sim?
 Voc sabe que, h alguns anos, eu e Christine fizemos vrios exames, sob sua recomendao.  Um tanto irnico, Samuel acrescentou:  Ora,  claro que se lembra disso. Como poderia esquecer, se foi quando conheceu a mulher de sua vida?
Helmut nada respondeu. Apenas continuou a ouvi-lo, com ar circunspecto.
 Agora sou eu que lhe peo desculpas, pela insinuao de mau gosto  Samuel declarou.  Sinceramente, no guardo mais ressentimentos por sua relao com Christine.
O mdico assentiu com um gesto de cabea. E ele prosseguiu:
 Vim at aqui porque algum plantou uma dvida terrvel, em minha mente, alguns dias atrs. Algum que afirmou que sou pai de um beb de cinco meses. S que isso no poderia acontecer, no  mesmo, Helmut? Pois, segundo o seu laudo mdico, sou um homem estril.
  Escute...
Helmut quis interromper, mas Samuel no permitiu:
 No se preocupe. J passei a pior parte do processo de aceitao desse fato. Na verdade, eu nem estaria aqui, se no fosse por essa pessoa que to duramente me acusou. S ento me lembrei de que jamais vi o resultado dos tais exames. Apenas aceitei a palavra de Christine e procurei me conformar. Depois, minha vida se transformou num pesadelo. Mas, felizmente...  Samuel fez uma pausa e sorriu, com certa melancolia, antes de completar:  sobrevivi.
  Escute...  Helmut fitava-o com inequvoca ansiedade.
Entretanto, Samuel continuava a falar:
 Voc deve ter um registro, bem organizado, de seus pacientes, no  mesmo? Ser que eu poderia ver minha ficha mdica? Sei que estou lhe pedindo uma bobagem, mas garanto-lhe que ficarei aliviado, depois dessa constatao.
Samuel recostou-se no sof. Pronto. Havia dito tudo o que era necessrio. Agora, s esperava que Helmut demonstrasse boa vontade e atendesse seu pedido.
O problema era que Helmut parecia petrificado. Seus olhos fitavam um ponto distante, enquanto ele esfregava nervosamente as mos.
 O que h?  Samuel indagou, preocupado.  Voc... no est se sentindo bem?
Um longo momento se passou. S ento Helmut respondeu:
  J faz alguns anos que no me sinto nada bem.
  Est com problemas de sade?
  Estou com um problema de conscincia, meu caro.
  No entendi.
Helmut levantou-se e comeou a andar de um lado a outro da ante-sala.
Samuel no estava entendendo aquela atitude, mas preferiu no interpel-lo. Afinal, Helmut j parecia to nervoso. De sbito, ele parou e fitou-o com uma expresso estranha.
  O que h?  Samuel indagou.  Voc est me olhando de um jeito...
  Estou apenas procurando a melhor forma de lhe fazer uma confisso.
  A mim?  Samuel espantou-se.
  Exato. Eu e Christine devemos algo a voc.
  Seja mais claro, sim?  Samuel pediu, impaciente.
  Vou falar de uma vez mas, por favor, no me interrompa.
 Diga.  Samuel cruzou os braos.  Parece ser algo importante.
 Antes de mais nada, devo lembr-lo de que eu estava apaixonado por Christine, naquela poca... E voc sabe que um homem apaixonado  capaz de tudo.
Samuel franziu o cenho.  
  O que sua paixo por Christine tem a ver com...
   Voc prometeu que no me interromperia  disse Helmut, ofegante devido ao nervosismo. Tomando flego, prosseguiu:  Quando expliquei a Christine sobre sua esterilidade, ela teve uma crise de choro. Penalizado, tentei consol-la e... Bem, confesso que me senti atrado por ela. Naquela tarde, trocamos o primeiro beijo.
  Desculpe, Helmut.  Samuel remexeu-se, inquieto, no sof.  Mas gostaria que me poupasse dos detalhes da relao de vocs.
  S estou falando disso porque aquele momento marcou o princpio de uma louca paixo... Que alis me levou a compactuar com uma lamentvel mentira.
 Como assim?  Samuel indagou, intrigado.  No estou entendendo, Helmut. Voc disse que quando falou a Christine sobre minha esterilidade, ela teve uma crise de choro...
  Sobre a sua, no  Helmut esclareceu.  Sobre a dela.
  O qu?
 Christine era a estril, do casal. E no voc. Samuel empalideceu.
 O que est dizendo, Helmut? Lembro-me muito bem de como Christine chegou em casa, naquela tarde. Ainda agora posso v-la e ouvi-la, informando-me de que eu era incapaz de gerar filhos.
 Ela estava mentindo. Mas eu no sabia disso. S vim tomar conhecimento do fato h cerca de um ano, quando viajamos, de frias, pela Europa. Conversvamos sobre a possibilidade de adotar uma criana, j que Christine no pode gerar. De repente, ela comeou a chorar, mas recusou-se a me dizer o motivo. Ficou terrivelmente deprimida e acabou bebendo um pouco demais. Talvez por isso tenha tido coragem de me revelar a mentira que havia pregado em voc.
 Mas... por qu?  a voz de Samuel soava trmula de indignao.  Por que ela fez isso?
  Disse que se sentiria humilhada, diminuda, culpada perante voc.
  Por ser estril?
  Sim.
  E ento resolveu repassar essa suposta culpa a mim...
  Na verdade, Christine tencionava retratar-se, algum dia. Mas da O casamento de vocs acabou e...
  E ela no teve a decncia de esclarecer esse fato  Samuel completou, por entre os dentes.  E deixou-me acreditar nessa mentira, durante esse tempo todo.
Helmut assentiu, com gravidade, antes de comentar:
  Alm do mais, ela julgava que voc no tinha o perfil de pai.
  Como assim?
  Achava que voc no era muito afeioado a crianas.
  Oh, sim, eu as detesto  Samuel afirmou, com amarga ironia.  Talvez seja por isso que escrevo tanto para elas.
- Compreendo o quanto voc est chocado.
  Compreende, ?  Samuel retrucou, furioso.
 Na verdade, fiz Christine prometer que qualquer dia esclareceria esse mal-entendido. Mas voc sabe como nossa vida  agitada, nesta cidade. Os dias, semanas e meses transcorrem numa velocidade estonteante. Quando nos damos conta, mais um ano j se passou.  Helmut fez uma pausa.  Quero confessar uma coisa: estou aliviado por poder lhe contar tudo isso. Como homem e como mdico, eu, em s conscincia...
 Ao inferno com sua conscincia!  Samuel ergueu-se de um salto. Sacudindo Helmut pelos ombros, desabafou:  Voc e Christine cometeram um crime, sabia? Christine, por puro egosmo e, voc, por omisso.
 Ei, tente se acalmar, amigo. Eu s soube dessa mentira cerca de um ano atrs.
 Pois ento deveria ter me procurado, para revelar a verdade. Um homem, ou um verdadeiro mdico, teria agido assim. Mas parece que voc no  nem uma coisa, nem outra.
 Est bem.  Helmut engoliu em seco.  Xingue-me o quanto quiser. Voc tem toda a razo em faz-lo. Sei que me odiar ainda mais, daqui por diante. Mas ao menos j no carrego esse peso na conscincia.
Samuel empurrou-o em direo ao sof. Helmut deixou-se cair, pesadamente. Sentando-se a seu lado, Samuel declarou:
  Eu nunca o odiei por ter se apaixonado por Christine. Sei que ningum a tiraria de mim, se ela mesma j no houvesse se tirado. Voc...  capaz de compreender essa idia to simples, Helmut?
  Naturalmente.
 timo. Quanto ao fato de sua conscincia estar mais leve, agora que me contou a verdade... Creio que esta sensao  apenas ilusria.
   verdadeira, Samuel. Estou realmente mais tranqilo.
 Pois j no se sentir to feliz, depois de ouvir o que tenho a dizer... E fao questo que voc conte a Christine.  Aproximando o rosto de Helmut, Samuel narrou sua breve relao com Helenna, num tom de revolta crescente. Por fim, concluiu:  Helenna morreu, julgando-me um crpula. E a irm dela, que me procurou para exigir que eu assumisse a paternidade de meu filho, deve estar pensando o mesmo, a essa altura dos acontecimentos.
 Pois saiba...  Helmut murmurou, com uma expresso penalizada  que sinto muito.
  Sinta mesmo. Pois esta culpa  sua... E tambm de Christine.  Lanando-lhe um olhar de desprezo, Samuel afirmou:  Vocs dois bem que se merecem.  E caminhou at a porta.
  Aonde voc vai?  Helmut indagou, desolado.
 Tentar salvar o que resta de minha vida. Helenna j no pertence a este mundo. Mas ainda restam Catherine e Theo.  E Samuel saiu, sem se preocupar em fechar a porta.
Estava transtornado, invadido por emoes contraditrias. Por um lado, estava furioso com Christine e Helmut. Por outro, porm, experimentava uma indescritvel alegria.
O mais sensato a fazer, naquele momento, era ir para casa, tomar um banho e refletir. Mas Samuel preferia obedecer a uma outra voz: a do corao.
Sim, era exatamente isto que ia fazer, ele pensava, enquanto saa do edifcio onde nunca mais pretendia pisar.
Entrou no carro e, pegando o celular que havia deixado no porta-luvas, ligou para Miranda Gladson. Pediu o telefone de Catherine e viu que ela relutava cm d-lo.
A situao era difcil. E Samuel preferiu optar pela franqueza:
 Escute, srta. Gladson, no sei qual  seu grau de relacionamento com Catherine Glenn...
  Somos amigas  a outra esclareceu.
  Ento, a senhorita devia estar a par do objetivo que ela tinha em mente, quando se apresentou em minha casa, para trabalhar.
Fez-se silncio, do outro lado da linha. E a voz de Miranda Gladson soou cautelosa, ao dizer:
  Sei que ela precisava de trabalho. E que  muito competente.
 Compreendo  Samuel assentiu, tentando pensar rpido. Por fim, resolveu jogar sua ltima cartada.  Como amiga de Catherine, a senhorita deve saber da existncia de Theo...
 Sim  Miranda respondeu, um tanto insegura.
 Pois  sobre ele que preciso conversar com Catherine. Trata-se de um assunto urgente, do qual depender o futuro de Theo... e de todos ns  Samuel ousou acrescentar.  Portanto, peo-lhe que seja compreensiva e me d o telefone de...
  Anote, por favor  Miranda o interrompeu.  Espero estar agindo de modo correto, sr. Winston.
 Pode ter certeza disso, srta. Gladson. E, a propsito, seria abusar muito se eu lhe pedisse, tambm, o endereo de Catherine?
  Seria  Miranda respondeu, mas no havia nenhuma censura em sua voz.
   que talvez Catherine no oua o telefone...
 Ou no queira v-lo  Miranda completou, mudando subitamente de tom.  Vamos parar de rodeios, sr. Winston. Falemos francamente, sim?
  Por favor...
 Quando digo que sou amiga de Catherine, no estou brincando. Sei que ela ficou profundamente magoada com o senhor. Portanto, espero que tenha um bom motivo para procur-la. E que no a machuque ainda mais.
Samuel considerou essas palavras em silncio. Por fim, afirmou:
 Se eu conseguir me explicar a Catherine, serei eternamente grato  senhorita.
  Est bem  Miranda assentiu, aps alguns instantes. Num tom bem mais cordial, acrescentou:  Catherine bem que me avisou que o senhor tem um jeitinho especial para conseguir o que quer.
 Tomara que isso seja verdade, srta. Gladson... Tomara.
 A propsito, ela me disse, tambm, que o senhor deixaria o telefone de seu advogado, comigo.
  Creio que isto j no ser mais necessrio, srta. Gladson. E agora, se no se importa, preciso desligar. Obrigado por tudo.



EPLOGO


Quem ser o chato que resolve perturbar a esta hora?  Ca-tnenne resmungou, ao ouvir a campainha pela segunda vez.
Decididamente, aquele no era seu dia de sorte. Havia chegado atrasada ao escritrio de um cliente, que dera-lhe uma constrangedora reprimenda. Acabara fazendo um bom trabalho, mas sentira-se muito cansada.
Tambm, no era para menos. Tinha passado a noite praticamente insone. E Theo, talvez ressentindo seu estado de esprito, estava manhoso e irritadio.
Justo agora, que ela enfim tinha conseguido faz-lo dormir, algum resolvia esquecer o dedo sobre a campainha...
  Calma!  Catherine ordenou, a caminho da porta. Abriu-a e ento recuou um passo.  Voc!
Parado  sua frente, estava o homem que tanto a havia magoado. O homem que ocupava sua mente, quando ela estava desperta, e seus sonhos, quando enfim conseguia dormir.
  O que voc deseja, Samuel Winston?
  Casar-me com voc. Quero reconhecer Theo como meu filho. Quero ser feliz, Catherine Glenn.
Boquiaberta, ela se perguntou se no estaria sonhando. No sabia como agir, ou pensar.
 Mas, antes de tudo, preciso explicar-me  Samuel afirmou.  Ser que posso entrar?
Incapaz de dizer no, ou de pronunciar qualquer outra palavra, Catherine deu-lhe passagem. Estava simplesmente perplexa.
Com a voz carregada de tenso, Samuel comeou a dizer a que tinha vindo... E por que.
A princpio, Catherine chegou a duvidar dos prprios ouvidos. Mas, aos poucos, as palavras de Samuel comearam a fazer sentido.
Quando ele concluiu a narrativa, Catherine apenas o fitou longamente, enfim compreendendo o motivo de tantos mal-entendidos, tanto sofrimento.
  Sei que j nada poderei fazer por Helenna. E isso me causa uma dor infinita, que terei de levar comigo pelo resto da vida.
  Voc no teve culpa...  Catherine balbuciou.  De que outro modo poderia agir, se acreditava, piamente, que era estril?
 Lgico que no me restava outra opo.  Samuel suspirou.  Mas isso no tira a angstia de saber que Helenna morreu julgando-me um homem inescrupuloso, cruel, sem carter... Ah, se eu pudesse reverter o passado!
Uma lgrima escorreu pelo rosto de Catherine, que nem se importou em enxug-la.
 Entretanto, a vida continua  Samuel afirmou.   Hellenna j no pertence a este mundo. Mas ns estamos aqui. Temos um filho para criar e um casamento a construir. Um caminho baseado em carinho, respeito, confiana, companheirismo... Enfim, creio serem esses os componentes do amor, no?
Um sorriso insinuou-se nos lbios de Catherine, enquanto seu corao pulsava acelerado, movido ao compasso de uma intensa alegria.
 Por favor, diga que concorda com tudo isso. Diga que quer se tornar a sra. Winston, que quer ser minha namorada, amiga e companheira... hoje e sempre.
Como resposta, Catherine atirou-se em seus braos.
Um longo beijo selou aquele momento, que marcava o incio de uma nova vida.
Agora, j nada poderia impedir a felicidade de Catherine e Samuel, que continuavam a se beijar, buscando o contato maior, o encontro perfeito.
As carcias foram se intensificando, numa ousadia s permitida aos amantes.
Num dado momento, Catherine e Samuel olharam-se, compreenderam. Tomando-lhe a mo, ela o conduziu at o quarto. E ali entregou-se ao homem que, em to pouco tempo, incendiara seu corao e apossara-se de sua alma.
Samuel era experiente no campo do amor. Assim, soube conduzir Catherine, sem pressa, pelos caminhos misteriosos do prazer, at que ela estivesse pronta para receb-lo. S ento a possuiu, com todo o ardor da paixo que o consumia.
Juntos, atingiram o clmax. Depois, exaustos e saciados, experimentaram uma doce sensao de paz. Por fim mergulharam num sono profundo e sem imagens.
L fora, a noite caa. E era como se houvesse uma estrela a mais, no cu. Era como se o universo inteiro comemorasse aquele encontro perfeito, de corpos e almas.



FIM

